quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A trilha sonora de Forrest Gump.





Estou quebrando a cabeça para escrever um post sobre os piores filmes do mundo. Não é fácil. Primeiro, porque os estúdios estão cagando filmes por todos os lados. Segundo, porque eu realmente não me lembro daqueles que me esbarro e fico pensando "mas porque?". Vou fazendo minha lista... Enquanto isso, num belo parênteses, tenho que falar do disco homônimo da trilha sonora desse que é um dos melhores filmes de todos os tempos - é claro que vou fazer a minha lista dos melhores, mas por enquanto ficamos com o incontestável Forrest Gump.

É impossível falar da trilha sem falar do filme. Ou vice-versa. FATO: Tom Hanks só faz filme foda. Isso é incontestável. Mas esse em si é de uma poética fora do comum. O contador de histórias é taxado como maluco, sempre. Não é grande surpresa Forrest ter uma certa deficiência mental. As pessoas o chamam de burro. Seria mesmo uma doença? Seria super proteção da mãe? Seria aquele tipo de gente boazinha demais que sempre há um do tipo no colégio, na faculdade, na igreja, na esquina? O tipo de gente fechado num mundo (cada um tem seu mundo, uns o expõe ao grau máximo, outros ninguém dá a mínima para adentrar) cercado de boas intenções, de uma vida recheada de encontros e desencontros, de altos e baixos, de medos e superações, surpresas e clichês. A vida de cada um daria um conto. Uma parada no ponto de ônibus, o que todos estão fazendo aqui? Para onde vão?

A angústia e a mágoa são coisas que nos sucedem nessa vida linguiça. Trombar com a cara na merda faz parte, só nos faz crescer e amadurecer. O nosso coração foi feito para bombear sangue em todo o corpo, mas ele responde de um modo incompreensível aos sentidos emocionais do cérebro, a ponto de doer. Acredite, meu caro... Eu sei do que se trata uma dor. Forrest nos mostrou isso. Mostrou também a superação. Em todo o decorrer do filme, a mensagem é essa, a superação. O contador de histórias narra suas presepadas, suas indas e vindas, seus amigos do peito, seu grande amor incondicional em Jenny. Ele vê a morte, vê o nascimento, se banha nas lágrimas do desespero, vê a fúria do criador, vê as pazes, a reconciliação. A guerra, os camarões, a pesca. Riqueza que não vale porra nenhuma se não houver o amor. A corrida rumo ao infinito. O cansaço, o sono, a cama. O dia seguinte, o por do Sol. As colinas verdes. O filho, a mãe, o pai e o avô. A lápide, o frio e o calor. A chuva e seu indescritível barulho.

O mais engraçado (já falamos sobre a graça aqui no blog no post do Led Zepelling IV) é que a trilha sonora foi escolhida a dedo, de cabo a rabo, em cada cena. É espantoso o forte apelo emocional que a música nos dá na história de Forrest. O disco - duplo - tem a dupla função de simplesmente ouvir as canções, babando nos artistas americanos (só há americanos, pois Forrest Gump se trata de um conto americano) e de ficar lembrando as cenas da película.

Por exemplo: É impossível ouvir Break on Through To The Other Side, do Doors, e não reviver a cena em que Jenny, locona, ensaia se matar. Fortune Son, do Creedence, lembrando a guerra do Vietnã. Hound Dog, do Rei, e a cena do pequeno Forrest ensaiando uns passos de dança em seu quarto. Mrs. Robinson, de Simon e Garfunkel, a era hippie, Forrest reencontrando Jenny depois de anos - aquele abraço inesquecível dos dois na lagoa... Respect, de Aretha Franklin, e os camarões sendo pescados representando capital no bolso de Forrest. Everybody's Talkin, de Harry Nilsson, e os campos verdejantes do Alabama. Joy To The World, do Three Dog Night, e Forrest hilário no coral gospel pedindo provisões na pescaria.On The Road Again, de Willie Nelson, e fazer parte de DON'T MEET WITH TEXAS. Raindrops keep falling on my head, do BJ Thomas, e sentir toda a atmosfera do filme...

Um disco completamente americano, com aquela coisa de que por mais idiotas que eles possam ser, eles têm bom gosto.

O disco... o filme. Um só. Nível fodástico: TODAS. 

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Sérgio Dias.



Acho que o que pintou naquele encontro com Sérgio Dias foi o fato de eu não saber quem ele era e ele não sabia quem eu era. Éramos uma banda, pra falar a verdade, mas aqui eu digo por mim. Foi o tipo de acontecimento em minha vida tão surreal que até parece que não aconteceu. Não tiramos uma foto sequer (ele não gostava de tirar fotos com as roupas de casa). 

Você, fã dos Mutantes, saiba que ali no apartamento na avenida Angélica, em sampa, onde o Sérgio morava, havia verdadeiras relíquias espalhadas pelo pequeno apartamento. Objetos, fotos e histórias, todas retratadas com a maior paciência pelo Sérgio quando era questionado. 

- O que você acha disso? O que você acha daquilo? Que foto é essa? Quem é esse? Esse disco, o que é? O que quer dizer essa música? 

Sérgio usava uma calça moletom, uma camisa qualquer surrada. Acordava quase pontualmente as 14h. Não admitia que sua filha, a Virgínia, cometesse o mesmo deslize...

- Eu sou músico, porra! Ela não. Vai dormir cedo e acordar cedo!

Virgínia, por sinal, uma garota que, na época tinha seus 15 anos, muito prestativa, muito conversadeira. Olhava nosso cigarro de tabaco e perguntava "como é que vocês conseguem colocar esse veneno para dentro?" A vimos apenas uma vez nos dois meses que frequentamos semanalmente a casa de Sérgio. 

Vinícius Junqueira - conhecido como Animal - era uma espécie de auxiliar de estúdio. Ia para lá e pra cá, sempre aos berros carinhosos do Sérgio quando precisava de algo: "ANIMAAAAAL". Aparecia em segundos. O que entendi foi que era como um estagiário.... O estágio acabou virando profissão, e ele é o baixista dessa nova onda do Mutantes pós Zélia Duncan. 

Lurdinha - a esposa - uma das mulheres mais divertidas que já conheci. Me deu um puta conselho uma vez.... Eles estavam preparando o lançamento de "Estação da Luz", do início dos anos 2000... Havia uma canção (há), La Famme Lurdina, que é uma das minhas preferidas, e o Sérgio colocou para eu ouvir. Comentei com a Lurdes que a canção era linda e que eu tinha uma também para  minha namorada da época, mas não queria mostrar. Ela disse "nunca perca a oportunidade, você pode se arrepender, não deixe passar". Não lembro se segui o conselho na época, mas nunca mais esqueci isso e sempre tento dar esse brilho na minha vida. 

Foi a época que conheci os Beatles. O Sérgio me falou deles. Havia um livro de gravuras lindão autografado por George Martin. Havia uma palheta do Les Paul num canto. A Stratocaster dele disputando atenção com a Gretsh Chet Atkings (a modelo do George Harrison). E, claro, ali, paradona, soberana, cheia de mistérios: a Régulus. Cheguei a pegar a guitarra nas mãos, mas tomei esporro. Aliás, Sério era mestre em dar esporros. Esporros que faziam todo o sentido. Nos educou em alguns aspectos de nossas vidas. 

As histórias contadas com um certo brilho no olhar. Histórias averiguadas depois no google, para ver se o cara não era maluco, pois, como eu disse, eu não fazia ideia de quem ele era. Imaginem eu pegando na Régulus, ignorando o que aquilo representava. Uma foto pessoal de Arnaldo Baptista em cima do piano de cauda. Histórias sobre a loucura que seu irmão foi parar. Conversas sobre drogas, religião, Deus, política. O que havia por de trás de Balada do Louco, e eu perguntando "que música é essa?". Ele se amarrava nisso... Havia ali coisa a ser lapidada. Pegou na guitarra e tocou a canção e eu a ouvi pela primeira vez assim. "Sabe tocar piano, Sérgio?". Sempre, com toda desenvoltura de um foda, senta e toca My Love, de Paul McCartney, para o meu deslumbre - também a ouvindo pela primeira vez. Ia para casa, puxava no Napster tudo dos FAB. Ia para o Sérgio, pegava o violão e dizia "olha o que eu tirei": This Boy. Ele: "Porra, essa é do caralho" e sentava com um outro violão e tocava junto e cantava junto, fazendo as vozes. Outra vez, também, em que descobri Oh Darling e pedi para ele me mostrar como se tocava. Só que ele cantou junto e nunca mais vi ninguém fazer o "when you told me..." na minha frente com a mesma porrada que ele fez - minha sobrancelha foi ao mais alto nível de minha testa. Ele disse "não vem da garganta, meu caro... vem de dentro, da alma, do espírito... é só acreditar que você consegue fazer". 

Aliás, do caralho era o seu melhor palavrão. Quando a coisa era muito, muito foda, era do grande caralho

Cheio de bagagem. Uma pessoa comum. Peculiar. Ali há apenas a áurea dele sobressaindo sobre todos. O intuito era gravar 2 canções produzidas por ele. Rolou, até rolou. Mas achávamos que isso ia dar em algo, pelo nome, sei lá... Alguém havia dito que isso seria bom para o nome da banda. Mas o que acabou ficando mesmo foi o convívio com as semanas que passamos lá. Ensinamentos que eu absorvi de tal forma que acho que devo alguma coisa a ele. Meu descontentamento é pensar que ele nem lembra de mim, e que as pessoas podem achar que isso nunca aconteceu - até eu mesmo duvido de vez em quando. O Sérgio é um grande cara, que foi um grande amigo por dois meses. Nos despedimos em um show dele, e se eu soubesse que seria a última vez que eu o veria, se e soubesse que eu iria virar um lunático por Mutantes, se eu pudesse agradecer... 

Grande Sérgio. Se você ler isso, cara, SALVE!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Whitney Houston chega ao céu...




Whitney Houston entrou na sala pós morte trajando seu clássico vestido branco, cabelos longos e negros. Seus olhos profundos exalavam um misto de incógnita e compreensão. Sabia que havia morrido, mas não esperava uma sala de espera, ainda mais uma sala tão clássica como aquela - chão de tacos incrivelmente lustrados, decorada com um sofá vermelho em L, uma mesa de centro de vidro escuro, uma lareira crepitando o som intrigante do fogo, um lustre quase medieval aceso com algo que ela não pode ver se era velas ou lâmpadas de 100 w iluminando  o recinto. O guardião vestia um terno azul claro e estava sentado no sofá, algo que dava um contraste fantástico com a cor vermelha. Carregava um livro grosso em seus braços e uma caneta tinteiro, de pena, daquelas famosas nos filmes de Harry Potter. 


- Porra...  - disse o guardião - teu nome é complicado de escrever, minha cara. No meu livro dos recém chegados, posso apenas escrever Wi?

- Faz diferença? Sempre achei que não viria parar aqui... - disse Wi.

- As pessoas na Terra sempre acham isso ou aquilo. Aqui é o céu dos músicos.

- Céu dos músicos? - disse Wi, esboçando aquele lindo sorriso. Sua feição já não era mais a carnal, a que as drogas haviam estraçalhado sem dó - quem mais está por aqui?

- Nunca passou pela sua cabeça que haveria o céu dos músicos?

- Nossa... Passou tanta coisa na minha cabeça que esse detalhe em si nem me ocorreu...

- Essa é a mágica da surpresa. Está surpresa?

- Muito!

- Pois bem... Aqui temos os comunicadores da música. É desse lugar que vem as vibrações para os compositores sentarem e escreverem, algo que lá na Terra dizem como ser inspiração. É tudo uma comunicação. Aqui você vai sentar numa mesa de jantar com Elvis, Lennon, Winehouse e Jackson... Também vai sentar na mesa com Wando, Elis, Jobim, Marley... Não fazemos diferença entre países nem classes sociais. Muito menos de fama ou sucesso, que é algo meramente terreno. Na mesma mesa estará aqueles que viveram no anonimato, sonhando e sentindo a glória de se expressar com a música. Nessa mesa também terá outros tantos que fizeram outros tantos tipos de música. E a comunicação de vocês não será a falada, nas línguas terrenas, mas sim na música. Teus problemas são teus problemas. Tua morte é problema seu. O que você fez com seu corpo, lá na Terra, você pagou com sua história, com seu exemplo. De um modo ou de outro deixou um bom exemplo, pois as drogas que você andou usando demasiadamente levaram seu corpo ao fim. É um bom exemplo para a sociedade. Não espere ser julgada aqui em cima, você já foi julgada na Terra por todos e, principalmente, por você. 

- Assim eu fico sem jeito...

- Mas é para ficar mesmo. Você foi brilhante, mas deixou o brilho te cegar. Acontece com muitos os que obtém o sucesso terreno. 

Wi deixou uma lágrima cair. 

- Venha, sente-se ao meu lado. 

Ela, muito elegante, ajustou seu vestido e sentou-se ao lado do guardião, que continuou.

- Vai ver que aqui essa coisa de bom ou ruim, de gosto e tudo o mais, não faz o menor sentido. Vai ver que todas as músicas são díginas de louvor. Vai perceber que nem precisamos pregar a palavras "respeito", porque aqui você é meramente uma energia que se acumula ao se juntar com as outras, e por aí vai. Não tem essa de rock é bom, samba é bacana ou soul é o que há... E, o mais impressionante, vai cantar como nunca aqui no céu dos músicos, de um modo que fez na Terra....Mal posso esperar para ver seu dueto com Michael Jackson na hora do jantar...

- Michael está me esperando?

- Assim como todos. Conhece o Caio de Abreu? Um violonista muito bom que morou nas Filipinas? 

- Nunca ouvi falar...

- Não sabe o que está perdendo. Enfim, seja bem vinda minha cara. A Terra ficou triste, o céu se encheu de júbilo, pois o seu talento está, finalmente, desprovido da carne.

- Então vamos...

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Led Zeppeling IV - 1971




Quando eu era criança, o Led Zeppeling já era um dos maiores fenômenos do Rock And Roll mundial. Minha educação musical foi discreta, pouca coisa foi me mostrada. Na verdade, quem fazia as honras de mostrar isso ou aquilo pra mim e meu irmão (dois molequinhos que mostravam levar jeito para tocar - meu irmão nas panelas e bacias de plástico e eu soltando a voz) era meu pai. Meu pai tinha uma bateria Pearl Export e nos fins de semana entupia seu velho Fiat Uno 86 cor de creme com a batera e ia para Piratininga (Niterói-Rj) fazer um som no extinto Nó Na Madeira (do João do Nó) com o pessoal do Couros e Cordas (que tinha o que dizem ser o melhor tocador de tantã do Rio de Janeiro, o Zé Três Bicos). Naquela época os músicos eram unidos. Niterói era uma cidade que vivia música. Meu pai via Artur Maia num canto bebendo seu choppinho e fumando a sua maconha enquanto dizia "e ae paulixta, vai fazer um som hoje?". Outros grandes que tocaram com todo mundo foram Marcelo Martins (que meu pai o chamava de Marcelinho) e Zeca Nuto, ambos saxofonistas. Os caras que eu chamava de tio eram o Júlia São Paio (o maior de todos, o FODA) o Mauro Costa Júnior (um sênior no violão fazendo flamenco) e o Luciano (um baixista que toca com todo mundo também). 

Mas de qualquer modo, meu coroa via o nosso interesse nos instrumentos. Eu e meu irmão sentávamos atrás do bumbo da Pearl e ficávamos viajando na vibração da banda tocando. A gente já arriscava alguns palpites, alguma coisa de tempo musical... tudo isso com 5 ou 6 anos. 

Sendo assim, o coroa mostrava as coisas. Lembro de Santana, com Soul Sacrifice, Evil Ways, Oye como Va. Mostrou um som do Spyro Jyro. E mostrou Rock And Roll, do Led. "Olha só o que esse cara faz na bateria"... Meu coroa, quando tinha seus 19,20 anos, tocava nas noites de São Paulo com seu amigo João Antônio - o tipo de história que não vira biografia porque não vingou sucesso comercial nacional, mas que daria um livro foda - e o Led fez a cabeça do coroa na época. Starway To Heaven é sinistra. Certa vez o coroa disse, enquanto ouvíamos esse disco, na hora que toca Starway: "Esse cara, quando fez essa música, estava encostado no espírito santo, só pode..." 

Será que há o que falar sobre esse disco? Tem sim. É um disco cheio de graça, um disco engraçado. Certa vez um amigo me disse que me ver cantando All You Need is Love, dos FAB, era uma coisa engraçada. Percebendo meu desapontamento, pois entendi algo como uma piada, ele me disse que era um momento cheio de graça. A graça é coisa séria. Esse disco do Led é cercado de um mistério vibratório do além. Um disco onde o rock and roll flertou com o além, a ponto de até o reverb usado na bateria ter sido natural, de verdade, num pé direito de 15 metros, em baixo de uma escada. O mato e o ar fora da casa estiveram presentes na gravação de Robert Plant e sua voz enigmática, única e desafiadora. John Paul Jones sendo o baixista que toda bada deveria ter. John Bonham - pra não dizer o melhor do mundo, pois seria injustiça com outros - toca com todas as almas do mundo, sendo assustadoramente perfeito no tempo musical na intro de When the Levee Breaks  . E Jimmy Page, além de produzir o álbum, se expressa na guitarra de um modo ao mesmo tempo punk, no sentido de "foda-se, essa merda não precisa fazer sentido", e preciso na técnica desprovida de apego. Page é tão foda que impressiona Jack Withe e The Edge apenas com um riff de guitarra - e impressiona o mundo dos amantes do instrumento. Não tem essa coisa de rei do timbre, rei do riff, rei do slide, rei da base, etc... Jimmy Page é um guitarrista de banda, onde a música era mais importante do que o apego à perfeição técnica - é aí que a coisa fica perfeita. 

Led Zeppeling IV vai da porrada ao doce, do espiritual ao carnal, do ilusório ao real. Os deuses do rock se orgulham. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

All Things Must Pass - George Harrison, 1970.





Certas coisas são incompreensíveis...

Outras coisas são fundamentais.
Poucas coisas perpetuam.
Poucos sonhos são lembrados.
Alguns amores se rompem.
Algumas barreiras se colam.
Deixe ir pro ralo.
Deixe eu te contar o que tenho a dizer.
Se por ventura me subestimar.
Brilharei em prosa.
Na sua escuridão enfurecida, no seu ego insuportável.
Eu vou brilhar.
Serei a contra maré.
Serei a contra cultura.
No ódio eu vou nascer.
No amor eu vou embora.
Um jardim, eu adoro jardins.
Eu planto para as próximas gerações.
As plantas nos falam sobre o passado.
Sobre o presente.
Sobre o futuro.
Eu sou um poeta.
Eu escrevo apenas sobre mim, mais nada.
A minha vida criou as minhas frases.
Meu sotaque é carregado.
Meu lamento é na guitarra.
O slide me conduz.
Meu senhor - My LORD - me entenda!
Paz interior, paz para você, para mim.
Todas as coisas vão passar.
A luz do sol não dura o dia todo.
Se afaste da escuridão.
LET IT DOWN!!!!
Minha carne me chama, me consome, me envolve.
Minha alma pede socorro.
Minha fama é conhecida.
Sou o quietinho, o tímido.
Sou o ingênuo, o caçula.
Sou doce e azedo.
Exalo louvor ao mistério de estar vivo.
Eu sou George Harrison.
Meu disco se chama All Things Must Pass.
Não sou mais um beatle.
Eu já morri.
E estou aqui.
Na minha música, que eu fiz pra mim.
Te convido a me ouvir.
Tenho uma absurda certeza de que esse disco vai mexer com você.
Pois eu deixei um jardim, para futuras gerações.

Todas as coisas vão passar. É tudo material. Nada é real.

Hare Krishna.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

O Bloco do Eu Sozinho - Los Hermanos - 2001





Era uma época estranha no Brasil. Na televisão que vinculava música (aquela dos VJ's) só se via Pato Fu, Jota Quest, Skank, Kelly Key, Oasis (a salvação) Silverchair, Metallica (com o Load e Reload), Virgulóides (nessa bumba não ando mais, acharam um bagulho no banco de trás)... Deu para sacar. Um horizonte perdido. Deserto pelando sem grandes expectativas. A mesma coisa que vivemos hoje e adoram falar de CSS, A Banda mais Bonita da Cidade, Emicida, Crioulo, Tulipa Ruiz e Marcelo Janeci - me recuso a citar Michel Teló, Luna Santana e Restart, mesmo sabendo que acabei de citar, esqueçam esses caras, estou falado de música. Antes de voltar ao assunto, ainda acredito que viveremos uma reviravolta, mesmo que seja em culto de antiguidades, que no meio dessa zona se tornam novidade. 

O que aconteceu depois que o Los Hermanos mostrou sua força produtiva, intelectual e criativa, o rock brasileiro nunca mais foi o mesmo, pois qualquer compositor que soava diferente de coisas na rádio era comparado com os barbudos. Há ainda de se afirmar que Anna Júlia, de finados dos anos 90, foi uma grande onda no mar agitado da banda. A música era sim espetacular e ainda é. Lembro muito bem que era obrigação tocá-la em qualquer palco que eu subia. Foi uma época peculiar. No disco de estréia, o LH tinha uma veia agressiva instrumental somado com os vocais quase fracos para berros de Camelo e de suas letras, que geralmente falava de traição - na escola, as pessoas diziam que LH era uma banda de cornos. 

E assim foi... Anna Júlia explode, tem mais uma bacana ali, que era Primavera - e o resto só foi virar hit depois que os caras lançaram mais dois discos e arrebanharam uma multidão de fãs - e houve um silêncio. Seriam mais um Virgulóides, mais uma banda de uma música só? Nada ia acontecer. Os caras que saíam na capa da Capricho não tinham outra coisa como Anna Júlia. Que mundo injusto. 

O lançamento de Bloco do Eu Sozinho foi discreto. Pouco se disse, além das necessidades básicas de um lançamento fortalecido por gravadora - música de trabalho na rádio e na MTV com clipe. A Abril deve ter pensado "uma coisa é você ser um Beatle e lançar um Sgt Pepper. Outra coisa é você ser um babaca que não é conhecido além de um hit de rádio e querer lançar essa coisa sem pé, sem cabeça... Aqui rola grana meus amigos, GRANA! Essa porra não vai vender nem fodendo". Mas vendeu. 

Eu já tinha ficado intrigado com o refrão "deixa eu brincar de ser feliz, deixa eu pintar o meu nariz". Lembro que achei a rima um tanto tensa, mas achei a coisa da transição Anna Júlia/Todo Carnaval tem Seu Fim fora de parâmetros. Uma letra verdadeira, que fazia sentido. Um clipe gravado em câmera lenta e que tinha corrida de sacos. Não soava como um punk forçado, soava como rock and roll puro e simples. Daí estive no carro com meu pai, tocou a música de novo. "Olha pai, lembra aqueles caras de Anna Júlia, essa é a nova música deles" - e coloquei o volume no 11. Alguns dias depois, completamente intrigado pela coisa toda, fui na 13 de maio e comprei um genérico do Bloco. Paguei 5 conto. Fui para casa. Me sentei na frente do estéreo, com as pernas ajeitadas no tapete de casa, e dei o play. 

O que se passou nunca mais foi tirado de mim. A surpresa é fundamental. Em todo o decorrer do disco, eu ia sendo pego de uma tal forma. Não era modinha, ninguém ao menso sabia que eles haviam lançado um disco novo. Aquela banda de merda, ninguém dava moral. A internet não era como hoje. Os fãs de coisas novas ficavam em casa, imaginando que apenas eles gostavam, porque não se falava. O Oasis era a mesma coisa. Gostar de LH era sinônimo de ser babaca. Hoje é status (e eu odeio isso, a moda). Esse disco tem um significado relevante para mim - era a música que eu queria ouvir. 

Revelou-se, além de tudo, Rodrigo Amarante como um dos maiores compositores do Brasil, com Retrato para Iaiá e Sentimental. O disco é melancólico, desde seu título (hoje espalha-se o tal do forever alone, coisa que os caras já pregavam). Estar sozinho é ter tempo para pensar em você. Sentado na sala ouvindo o disco, eu estava de fato num bloco do eu sozinho. Usando notas dissonantes, o LH fez um rock um tanto desvinculado de influências e abriram as portas para as bandas que brigavam com o comercial. 

Mais tarde tive o prazer de vê-los ao vivo pela primeira vez no Campinas Hall - e haviam mais fãs que eu poderia imaginar. Todos esgoelando as frases (sim, frases, uma após a outra, não apenas refrões), e naipes dos metais e todos os arranjos. Percebi que ali haviam pessoas que foram tocadas pela expressão da música desses caras que não deram a mínima para o sucesso que havia caído sobre eles - não havia cenário, não trajavam roupas extravagantes, não eram um clichê. Um grande suspiro. Fomos salvos.

O Bloco do Eu Sozinho tinha aquela coisa de ser meu, apenas meu. O Ventura espalhou-se de tal forma que o charme de "apenas eu curto isso" foi pro ralo, mesmo tendo adorado o disco quando foi lançado. Mas o Bloco é isso, único, para aqueles que sentiram o brilho da escuridão melancólica. nível fodástico: TODAS. 

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Mr. Trip





The Beatles - Magical Mystery Tour - 1967

Essa é coisa desse disco - os Fab te chamam para uma viagem sem compromisso. Após Sgt. Pepper, Paul vem mais uma vez com suas alucinantes trips e pega o volante da banda. John está completamente entregue ao vício de Heroína e LCD, um tanto distante das atividades profissionais que lhe eram forçadas como um beatle. Mesmo assim, ele vem com a filosófica I Am The Warlus, onde os efeitos do LCD são, mais uma vez, usados como fonte de inspiração - "Eu sou você, você está aqui e somos todos a mesma coisa, jutos" (ou algo desse tipo). Anos depois, Jim Carrey interpreta com maestria essa canção num disco de George Martin chamado In My Life (poderia ter criado um nome melhor, mas essa não é a praia de Martin).  O curioso é que Magical Mystery Tour não foi concebido para ser um disco em si, mas sim a trilha sonora do filme homônimo, que na época, por ter sido lançado em preto e branco, não fez muito sentido e a crítica caiu de pau, pela primeira vez, num trabalho dos Beatles. "Eles foram longe demais, quem pensam que são?".

Nessa época (até um tanto antes) Paul McCartney tinha todas as portas de Londres abertas para si. Sua casa era frequentada por tudo quanto é tipo de figura, desde artistas plásticos a escritores de uma era que ficou conhecida como beat. Claro, todos devidamente fornecidos de haxixe. Ou seja, além das portas estarem abertas, ele abria a sua casa para muita gente. Linda disse que, quando entrou em sua casa pela primeira vez, era um verdadeiro canto sujo de um solteirão - na geladeira, apenas um pedaço duro de queijo velho e um litro de leite podre. Mas era no salão de música que a mágica acontecia. Paul havia pedido para um sujeito pintar seu piano de armário, e a pintura pode ser vista até hoje nas turnês de Paul, aquele arco-íris psicodélico.

Nessa mesma sala de música John Lennon podia ser visto pelas pessoas que circulavam aquele verdadeiro cortiço. John e Paul apresentavam as canções um para o outro, e eles a avaliavam e faziam ajustes, dando palpites de letras, harmonias e outras partes. A mesma coisa acontecia na casa de John quado Paul dava um pulo por lá - John era um cara casado, recluído e meio puto por não aproveitar a vida como o boêmio Paul o fazia.

A música tema que abre o disco foi composta por Paul, num gráfico esférico e maluco - uma mania que Paul tinha de desenhar suas coisas e que aparentava fazer sentido apenas a ele, coisa de maconheiro. O mesmo tipo de gráfico pôde ser visto no encarte de Press to Play, de Paul. "Abram alas para a mágica e misteriosa turnê", diz a primeira frase do disco. Com um filme em mente, o disco foi se desvinculando da coisa do áudio, dando ênfase ao visual. Sem perceberem, eles fizeram um dos melhores discos da carreira dos fab.

Por exemplo - The Fool On The Hill foi criada com o propósito de se fazer tomadas nas montanhas, mas nem parece... É mais uma canção tocante de Paul, composta no piano psicodélico. Ler a biografia me deu informações inesquecíveis... Claro que é mais do mesmo, mas a forma com que as coisas são contadas é o diferencial da informação. Flying é da tomada aérea, aquela que tanto foi xingada, pois em PB as montanhas vistas de cima não fizeram o menor sentido. O busão fora encomendado pelos Beatles - que, aquela altura, conseguiam absolutamente o que queriam... eles batiam o pé, principalmente Paul, que dizia "ora, veja bem...somos os Beatles meu caro", falava isso para o presidente da EMI quando esse achava as exigências um tanto excêntricas. O busão ficou lindo de foda. Todo amarelo com o logo do disco gigante na lateral. Coisa dos anos 60...

Como sempre, George Harrison sempre fez a diferença. Desde Don't Bother Me, ele sempre vinha na contra mão do que Lennon e McCartney faziam. Isso é natural, cada um tem seu CPF. Blue Jay Way é de um desespero sem precedentes, uma levada arrastada, uma jeito tão peculiar de cantar, com todo aquele efeito na voz. Até aí o disco se mostra, de fato, muito mais despretensioso do que tudo que haviam feito. Sgt Pepper já havia engordado as contas bancárias por umas três gerações de cada um. O foda-se é intuitivo. Aí vem Your Mother Should Know e é preciso lembrar que o baixo do Paul é fora do normal. Parece que o Rickanbacker foi feito para ele tocar, e só. Uma das coisas mais lindas foi ouvir essa canção em si remasterizada. Não estou falando dos craqueados para o You Tube (isso perde o sentido) mas os Cds em si. FODA. E o lado A se encerra com I Am The Warlus, com John aparecendo pela primeira vez no disco, como se estivesse dormindo e distante, daí ele acorda, sacode a poeria e fala "ok caras, vamos por essa porra para foder".

O lado B é simplesmente um emaranhado de sobras. Como eu disse, Magical Mystery Tour não foi criado para ser um disco em si... Só que, cara, as sobras são nada mais nada menos que Hello, Goodbye (Paul); Strawberry Fields Forever (John); Penny Lane (Paul); Baby You're a Rich Man (Paul e John) e All You Need Is Love (John) - isso mostra a guerra sadia que havia entre os dois. Qual era o melhor? Complicado. Não preciso dizer mais nada. Um disco esquecido por muitos, falado por poucos. Há aqueles que dizem se tratar do melhor disco dos Beatles. Logo após, eles levam a brincadeira "mais a séria" e gravam o álbum branco, mas isso é papo para outro post. nível fodástico: TODAS, é claro.