quinta-feira, 18 de julho de 2013

Felippe Pompeo lança "Júlia na Terra da Imaginação".




Felippe (vulgo Pompeo) assina seu livro como Antonucci. "Acho que apenas para diferenciar meu trabalho musical do literário. Na verdade eu acho que sempre fui um escritor, só que as vezes eu uso a música para deixar meus textos mais atraentes". Antonucci, por assim dizer, ainda mora em Joaquim Egídio e tem um novo cachorro, desde a última vez que a equipe do Blocos de Cimento esteve presente em sua casa para falar sobre o lançamento do disco do Oito Mãos, "Aliás". Raúl late desesperadamente por dez minutos. Depois senta-se ao sol, observado pelo dono. "Ele apareceu aqui e resolveu ficar". 

Eu li o livro. De onde foi que tirou tal criatividade?

Não faço a menor ideia. Júlia nasceu do nada. Uma vez eu sentei no computador e escrevi a frase "Júlia acordou de repente, sentindo suor em seu corpo". E por aí foi. Há anos eu tento escrever histórias originais. Mas, como na música, no começo você é um fracasso. Fiz meu pai comprar uma máquina de escrever para redigitar uma história policial que se chamava "O Maníaco da Rosa". Era uma merda, evidentemente. Lembro que usei nome de gente ao meu redor, o povo todo da igreja que eu frequentava. Não sei onde isso foi parar. Outra vez eu escrevi uma história do Super Homem, chamei de "A Profecia". Piegas até a última gota. Eu sempre tive dificuldade em saber executar os clichês, porque eles são inevitáveis. Tudo o que temos de histórias fantásticas nos fornece um caldeirão. Cada um faz a sua sopa.

A criatividade cara... Você é extremamente criativo.

(Risos, muitos risos). Mostrei um tiquinho do meu novo disco, o Bravo, para o Elthon Dias, grande amigo meu. Ele ouviu a faixa título e falava com uma sinceridade fora do comum: "Felipão, você é muito louco". Daí quando acabou, ele ficou sem palavras. Colocou-se de pé e bateu palmas pra mim. Eu realmente não sei de onde vem. A única coisa que eu sei é que eu não limito minha mente, eu não me fecho para o mundo real, o mundo da ida e vinda, da grana, do sustento. Eu me apego demais em minhas viagens. Tudo o que eu sempre quis ser e nunca consegui, eu sempre senti isso. Quando a gente começa a pensar, por exemplo: "e se eu ganhasse na loteria? Usaria roupas fodas, um carrão, uma guitarra Gibson..." Daí, nesse momento em que você pensa nisso, a imaginação é tão forte que você praticamente veste essa roupa, usa esse carro e tem essa guitarra. Quantas vezes eu subi num palco para 10 mil pessoas dentro do meu chuveiro? Quantas vezes eu me vi passando na MTv? Quantas vezes eu me vi num vale onde com um aceno de mãos, árvores e nuvens apareciam do nada? Não sou eu que sou criativo, são as pessoas que se limitam ao "real". 

Mas você tem que assumir que não é todo mundo que consegue fazer tais coisas... Cantar, tocar, escrever... 

Eu não pedi para ter nenhum desses dons. Eu administro uma loja de material de limpeza, não tiro meu sustento de meus dons. Eles me fazem sentir vivo, apenas isso. Certas pessoas tem facilidade com números, com Aristóteles, com bisturis, com vendas. Eu nasci para a arte. Nasci para fazer do meu mundo um lugar muito mais interessante do que a Terra. Na medida do possível eu compartilho esse mundo. O que cabe em 200 páginas de um livro não é nem unha do que há em minha mente. O tempo todo sou bombardeado com questões de todos os tipos, mas não consigo passar para as pessoas, mesmo porque eu sou o chato do facebook. Essa coisa de "meu mundo"... No meu mundo Paul McCartney é o melhor. E dentro de cada um existe um universo, onde o limite de um acaba onde começa o do outro. 

Me espanta muito o fato de você, um cara durão aparentemente, escrever para crianças.

Eu não escrevo para crianças. Escrevo para o ser humano. Quando você cresce, não sei o que acontece que a gente deixa de correr, de brincar, de sorrir de qualquer coisa. As crianças são protegidas pela inocência. Feliz é o moleque e a menina que tem seus pais para garantir tal isolamento do mundo real. Ao mesmo tempo que as coisas que acontecem numa escola forma todo cidadão. Desde cedo, viver é foda. Há verdadeiros demônios dentro de uma carapuça de 12 anos. Há verdadeiros gênios dentro de um corpo de 10. Há verdadeiros idiotas em corpo de 30 anos. Por aí vai. Minha proposta é mostrar para a criança que a vida é foda, e mostrar para o adulto que ser criança não é uma questão temporal, mas de ser. A minha imaginação é imensa. Nunca devemos nos limitar no momento em que pensamos "nossa, eu estou sendo ridículo". 

Mas tais propostas cabem num livro onde uma árvore se abre e, após isso, um mundo completamente diferente se mostra? Quer dizer... A fantasia encobre as coisas.

Não há nada de diferente em uma floresta, animais por todos os lados, ar puro, rios, vales, sombras, mal, bem... A Terra da Imaginação pode ser em qualquer lugar. Aqui em Joaquim Egídio tem uma trilha, dá um pulo lá e veja a porta que há dentro de cada árvore. Seria um exercício interessante. Meus cachorros falam comigo, isso é evidente. Só os caretas não acreditam nisso. 

E Júlia? Seria você? 

Não tenho como fugir disso. Sim, eu sou ela. Porque uma menina? Não sei exatamente. Lembro de quando escrevi esse primeiro livro, era uma época em que o povo da igreja metia o cacete no Harry Potter. Lutei muito para lidar com essa coisa da magia, do sobrenatural. Demônios, bem e mal. Me vi numa encruzilhada ao tentar descrever Júlia e seus objetivos. Quando percebi, usei todo o mundo em minha volta para fazer a história ter algum sentido. Esse livro não é para crianças de 40 anos atras, é para a molecada de hoje que sabe usar um i-pad e um PS3 melhor do que eu. Elas são o futuro que nunca chega. Júlia é uma moça brilhante, mas que até então é limitada pelo povo do "mundo real". Ela briga consigo mesmo quando tem que lidar com esses valores, em tais momentos em que ela se olha e diz "mas como é que eu fiz isso?". Da mesma forma que eu me pergunto, todos os dias: "Como foi que eu escrevi esse livro?".

Mais uma vez você vem aqui e se entrevista...

A gente fez um release lindo. O livro está lindo. Uma puta capa maravilhosa. Mandamos para os veículos de comunicação da cidade. Abri os principais jornais da cidade e nada. Pensei "é, eles não querem saber de porra nenhuma...". Quanto custa uma nota? Quanto custa uma matéria? Quanto custa uma entrevista? Eu não sei.... Meu modo de firmar cada vez mais o que eu quero dizer é ficar fazendo essas viagens aqui, da mesma forma que Júlia nasceu. Como eu te disse, minha imaginação é sem limites. Nesse momento, por exemplo, te vejo sentado na minha frente com um gravador em mãos, meus cachorros em volta, um clima maravilhoso lá fora, gente da cidade toda lendo isso aqui e uma fila enorme esperando o momento do laçamento do livro, doidos para saber o que acontecerá após ler essa entrevista. Pra quê eu vou me limitar ao mundo real? 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Raul Terceiro.



Raul é o tipo de coisa que me evidencia a existência de Deus. E nós poderíamos chamar isso de acaso, se te deixa um pouco mais feliz. Me desculpem os ateus, mas, assim como o meu papo é sem sentido para vocês, os seus argumentos sobre a não existência de Deus não faz o menor sentido e mostra-se uma total confusão na consciência de sua própria existência. Deixando bem claro que religião não me leva a lugar algum e nunca me levou - pois uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa - Deus se faz presente em momentos em que ele parece se esconder. Daí você tem que ligar os pontos nas linhas tortas da escrita certa. Acho que é por isso que existem os ateus, pois eles não ligam os pontos. 

A questão básica é a bondade que exala felicidade e um certo sossego. É claro que a sua vida nunca vai deixar de ter tribulação. Para ser mais exato, acho que a vida é tribulação aliviada por momentos bons. Deve ser esse o plano da vida na Terra. Mas Deus se faz presente. 

Eu e minha mulher somos amantes dos cachorros. Eu já tive a Buba e a Dara. Hoje temos a Madalena na casa dos meus pais.  A minha mulher teve o Xuxo, o Bolinha, a Dolly, a Pitucha, a Grampola, a Tulipa,  e a Mel. Lá na casa  dos pais dela ainda tem a Sara, o Prejú, o Boby e a Sarita que vive na rua. 

Quando fomos morar numa casa, imediatamente ela queira um cachorro. Eu bem que tentei negar, mas foi impossível não ceder ao primeiro presente do criador. Maria Bethânia mancava no meio da estrada de terra que vai dar na nossa casa. Ela estava suja de poeira e carregava uma enxurrada de carrapato. Minha mulher a pegou e trouxe para nós. Foi amor a primeira vista. Bethânia é a coisa mais linda que eu já vi na vida, do olhar mais puro que um ser vivo pode ter. 

Meses depois aparece via facebook a Pantera. Forte, musculosa, perfeitamente igual à Bethânia. Carregava no texto de sua descrição a horripilante história do sofrimento que o ser humano pode causar aos cachorros. Sobre novos protestos, minha mulher foi buscar a senhorita Pantera. Quando ela chegou, mostrava uma humildade fora do comum, se rastejando no chão ao ver o homem da casa.  Eu, puto, não dei conversa para ela nessa primeira noite - até hoje peço perdão para Pantera por esse equívoco da minha vaidade - e logo no dia seguinte percebi o quanto era grata por nós dois termos resgatado ela das garras dos confusos. Pantera era amada. Demos o nome de Pantera Ponte Para Terabítia. 

As duas se deram super bem até o dia em que fizemos um aniversário na minha casa. Tanta gente deve ter deixado a pobrezinha da Pantera bem confusa, e não deu outra. Atacada pelo ciúmes que só quem sofreu bastante pode ter, Pantera atacou Bethânia na frente dos convidados. 

Passado os dias, a coisa só piorou. E era uma briga mais sinistra que a outra. Eu sofria, minha mulher sofria, Bethânia (tadinha) tomava aquele pau. E não dava para ficar bravo com a Pantera, pois ela era indefesa e vítima da própria educação que teve quando mais jovem. 

Eu perguntava "mas meu Deus, nós estamos fazendo a nossa parte, nós amamos esses cachorros, isso não é nada justo". E, contra todas as possibilidades do que seria perfeito para nós como família, Pantera foi pra fora, Bethânia ficou pra dentro. Por um lado Bethânia perdeu o gramado. Pantera perdeu a casa e o calor intenso dos donos. Nos preocupamos e ficamos bem tristes com a possibilidade de Terabítia viver sozinha no quintal, sendo amparada por nós, os donos, umas duas ou três vezes ao dia. Saíamos no quintal para mostrar a ela que nós a amávamos com todo o nosso ser, mas que para o bem da casa e da família, deveria viver para sempre no quintal. 

Semanas depois minha mulher viaja. Eu, sozinho, tomo conta de Bethânia e de Pantera, cada uma na sua. Fazer o que, se era pra ser assim, Pantera sozinha, então assim seria. 

Só que Deus é foda. 

Ele escreve certo com linhas terrivelmente tortas. 

Um dia eu fui tomar uma cerveja no boteco perto de casa. Ao abrir a porteira, lá fora estava Raul. Olhado para mim do jeito que até hoje ele faz. Sua língua pendurada num frenético vai e vem dos cachorros afobados, cheios de energia que a vida pode proporcionar. Carregava uma coleira gasta e uma bela costela a vista. Pensei "meu Deus, mais um abandonado". Fechei a porteira e fui pro boteco. Raul até tentou me seguir, mas eu disse "sai fora". Lá no boteco, depois de umas, duas, trinta e tantas, aparece Raul. As pessoas brincavam com ele e eu dizia, todo orgulhoso, "esse é o Raul, eu o conheço já". Não me pergunte da onde eu tirei esse nome. Eu simplesmente passei a chamá-lo assim. 

Quando resolvi ir embora, alegre como eu estava e eufórico pelo álcool, chamei Raul para ir em casa, pois eu ia dar comida e água. Assim foi. E dizem que os cachorros escolhem ir ou vir. Raul escolheu ficar. Fiquei desesperado e fiz anúncios no facebook e em sites de adoção canina. 

Nunca vou me esquecer da frase que eu mais disse ao criador. "Por favor, me arrume um dono para esse cachorro". 

E ele arrumou. É claro que nada é tão simples ou fácil como um simples post de blog. Nada é tão fácil quanto parece. Foram noites e noites pensando no que fazer até minha mulher voltar da viagem. Foi uma barrinha ao novo comportamento da casa. Como as coisas funcionariam daqui pra frente? Não sabíamos. Mas a vida sabia. Raul foi para o quintal com Pantera. A monstrinha cedeu espaço na sua casinha para Raul dormir junto dela. Aos poucos nós fomos percebendo o puta presentão que ganhamos de Deus. Não nos preocupamos mais com a solidão de Pantera. 

E nada é fácil, a vida não é e nunca foi fácil. Os dois fazem a maior zona, uma puta sujeiraiada no quintal. Para passear devo descer toda a minha força para segurar os dois. Bethânia vive dentro de casa e a gente sente que ela sabe que assim foi o melhor. De vez em quando a Pantera desce a porrada no Raul, mas é assim mesmo. Nada tão assustador quando as duas fêmeas se pegam. 

É tão exato e perfeito que as linhas tortas nos entortam, mas quando você enxerga o certo... A coisa faz todo o sentido.

Somos infinitamente gratos por todos os cachorros que passaram em nossas vidas. 

Especialmente por Maria Bethânia, Pantera Ponte Para Terabítia e Raul Terceiro - o magnífico! 

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Bravo, dia 5.


Nas vésperas de Luis visitar seu país - pra quem chegou agora, o cara é espanhol, tem família em Sevilha, fala um espanhês como ninguém - eu e o próprio estivemos no Estúdio Norte para dar continuidade ao trabalho. A grosso modo, terminamos os teclados. Colocamos uma coisa linda que eu não consigo expressar em palavra na faixa "Guairá", uma canção em A maior que cheia de camadas sonoras que não se resumem apenas numa cama. As coisas estão indo pra outro lado de tudo o que eu já fiz na vida. 

Novos rumos, novos equipamentos. Luis possui plug-ins incríveis que resolvem a vida de qualquer maluco de plantão. Tem um que apelidei carinhosamente de "negão chinês com pé em cuba", que nada mais é do que o botão que usamos para fazer as congas em "You Know" (aquela que parece o Eric Clapton tocando bossa nova no violão de nylon). A congueria é tão perfeita que tenho que deixar claro que não fui eu quem tocou - já que nos créditos você vai ler a pretensão do artista aqui em dizer "todos os instrumentos por Felippe Pompeo". Mas as congas, não! Eu apenas disse "é essa!". 



gravando o baixo, Gianinni Sonic 1980. 


É claro que eu não sou chinês e não sei usar as coisas todas que eles nos propõe. Também sei que não apenas os chineses que fabricam essas paradas. Mas é impossível não fazer a aproximação dos orientais com a tecnologia. De qualquer modo, o baixo usando na gravação do Bravo é de origem brasileira. Como disse o Paulinho Ferraz, o cara que finalmente me deixou feliz mexendo em meus instrumentos: "A madeira na época era boa, os caras que não sabiam o que fazer com isso". O baixo é pesado, braço perfeito, "tocabilidade" extraordinária. Mas não é um Fender Jazz. Sua captação é, a rigor, um microfone embutido e isso traz muita chiadeira. Mais uma vez fomos salvos pelos chineses que implantaram uma ferramenta perfeita de "noise reduction" no line 6 que usamos para gravar esse baixo. 



gravando guitarra, minha Fender Stratocaster Americana Lead II. 

Pela mesma camisa que uso, dá pra perceber que gravei o baixo e a guitarra no mesmo dia. Sim, eu troco de roupa diariamente. Essa Fender é o meu mimo. Acho que sou o único nas redondezas que tem uma dessa. Se trata de uma edição limitadíssima que a Fender fez nos anos 80. Ela tem umas frescuras de diferença - são 2 singles ligados numas chaves esquisitas. Como não sou técnico em guitarras e não manjo porra nenhuma disso, é o máximo que consigo falar sobre ela. Tem um som único - nenhuma estrato tem o som dela. Ficou curioso? Dá um google, tem informações bacanas sobre ela. 



Não precisa de legenda, né?

O paredão acima foi usado no único solo de guitarra propriamente dito em todo o disco. Só tocando num desses para saber a emoção de subir num cavalo de raça ou dirigir uma Ferrari. 


O fabuloso Admira, usado para fazer a bossa nova de Eric Clapton.


Dando instruções ao Luis. 



Pearl Senson Séries. Usada na gravação de Bravo. 


Minha caixa Odery Made In China 14x8 esteve presente 100% na cozinha de Bravo. Mais uma vez fomos salvos pelos chineses, que conseguiram fazer essa coisa linda e vender a preço final de R$500. 

Enfim. 

Aloha. 








domingo, 23 de junho de 2013

Bravo, dia 4.


O quarto dia de gravação do meu terceiro disco de carreira aconteceu na terça feira 18, mas só agora fui sentar aqui para falar sobre isso. Cheguei a tirar fotos e fazer um filminho de eu e Luis conferindo um trecho em que somamos sintetizadores, para ver se não estava brigando com a voz. Mas ficamos tão cansados no final da sessão que nem lembrei de colocar em meu computador tais imagens e vídeo, então nos contentaremos com as palavras. 

Bravo não terá violões de aço, o que é uma coisa inédita para mim. O meu Takamine folk sempre esteve presente nas minhas faixas, desde Vejo Cores nas Coisas (Oito Mãos), passando por SOL (onde ele brinca de gangorra com o Epiphone Jumbo de meu amigo Lucas Bocchese) parando em Aliás (Oito Mãos de novo). Não sei o que me levou a tomar essa decisão. Cheguei a levar o Takamine para o estúdio, mas ele não teve espaço. Quem veio com tudo foi o maravilhoso Admira, cordas de nylon, que meu pai me comprou há um bocado de anos quando foi para a Espanha. Lembro de ter respondido "um violão" quando ele me perguntou o que eu queria que ele trouxesse das zoropa. 

Admira entrou nas faixas You Know e O Velho. No Velho nossa querida guitarra (como dizem os próprios espanhóis, Luis é um deles) foi judiada com a batida roqueira do gordo aqui, descendo o pau a cada momento em que a canção segue para o seu pico total. Já You Know é de uma leveza sem tamanho, charmosamente descrita por Guilherme Moraes como "Eric Claton tentando tocar Bossa Nova". Não se trata de uma bossa, mas a analogia faz todo o sentido. Nos overdubs de You Know, Luis me dizia "cara, falta algunas coçitas, faz uns trocitos bonitos e bamos ber no que dá". Então eu respondia "porra Luis, você está acostumado a trabalhar com os caras do flamenco... sei tocar essa merda de nylon não". Mas a gente se virou. 

Ah é, Moraes deu um pulo no estúdio e foi o primeiro a ouvir o que estamos fazendo. Ele chegou bem no momento em que eu tomava um belo dum cacete para gravar o piano de "O dia de minha morte". Piano é o instrumento que mais me dá trabalho, ser exato numa porra dessas é pra quem sabe. No meu caso, eu preciso raciocinar para tocá-lo, e é aí que eu perco o tempo. Mas deu certo. Guilherme chegou a dizer "eu nem me atrevo". 

Fizemos também os sintetizadores já mencionados acima da canção "A luz define você". Logo partiremos para os outros sints do disco - os chamados PADS. 

Por enquanto é isso. Por mais que me pareça que muita gente que eu gostaria que estivesse lendo isso aqui e tivesse esperando ou me dizendo coisas não estão dando a mínima, eu sei que tem gente que me dão certo valor por eu fazer o meu trabalho. De qualquer modo, Bravo está nascendo para ocupar mais um espaço no mundo incerto dos sonhadores. 

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Bravo. Dia 2 e 3.

A semana passou lentamente. Eu estava ansioso para dar continuidade ao trabalho. Mesmo com todo o assunto das manifestações desse país que um dia será digno de seus filhos, eu não conseguia parar de pensar no meu disco. Acho injusto ter que pensar em outras coisas além do que anda acontecendo. Mas precisamos continuar com a  vida. A minha me traz, mesmo que timidamente, ao estúdio para vomitar todas as minhas necessidades de vivência. Ver as cores de seus sons sendo produzidas num fervilhão de ideias e perceber que há uma banda tocando no software - mesmo que eu tenha feito tudo o que se ouve - é demais! Eu já deveria ter me acostumado com tal coisa, mas é sempre novo. 

A começar que usei o baixo Gianinni Stratosonic da igreja que minha mãe congrega. Penso seriamente em fazer uma oferte para eles. Levei o baixo no Paulinho (luthier que trabalha ao lado da Playtech) e ele deixou o bichão pomposo. Em coisa de algumas horas tínhamos todos os baixos gravados. Ele foi plugado num rack da Line 6, o tipo de coisa que ajuda a ganhar tempo, pois o som já vem pronto.

Outra coisa que traz o som pronto é um rack simulador de amplificadores e efeitos diversos da BOSS, o GT Pro. 


Luis (o Alcaide, sem acento no i) dono do estúdio Norte, disse que essa ferramente era uma mão na roda, pois teríamos um mundo de possibilidades. Confiei nele e largamos os amplificadores de lado. O interessante nisso tudo é que o som vindo do Boss parece algo muito "forçado", muito "pasteurizado". Mas quando é somado à música, parece que ele estava pronto para uso. Você consegue fazer de tudo - regular delays, flangers, chorus, compressores, drives, octaves... Você vai  do som mais limpo e encorpado ao mais trash possível. Com essa belezinha nós fizemos verdadeiros paredões de sons. Há momentos em que temos quatro ou cinco guitarras fazendo a mesma coisa para dar uma profundidade colossal ao som. Tudo isso gravado com minha Fender. Estou considerando a hipótese de mandar um email ao pessoal da BOSS e perguntar se eles não querem que eu seja um representante sobre como usar as coisas dele. (sacanagem, eu não me acho tanto assim). 

Mas daí tivemos que gravar um solo. Algo que viria das profundezas, carregando fogo numa bola de fúria incontrolável. Seu feedback deveria ser incontrolável. Precisávamos de uma força insuportável de watts vindo de válvulas de potência somado com ruídos de carga elétrica e ondas sonoras dançando entre alto falante e captador das minhas cordas 0.10. Dessa vez não foi meu bom e velho amigo Fender Hot Road, ele ficou pra outra. Entrou no time uma combinação inusitada (ou não seria tão inusitada assim?). Em cima, mandando todo o seu amor e ódio, nosso amigo Marshall JCM. 


Em baixo, recebendo tal amor e ódio, um caixa de 4 falantes de 10 da Mesaboogie. Guitarristas de plantão, é preciso sorte e um tiquinho de grana para ter essa experiência. Estar numa sala de captação, afinar sua guitarra, o técnico dizer "vai" e você ter que ter discernimento suficiente para controlar um monstro desses no volume 5... Chega a doer na pele. Os takes são cada vez mais mágicos. Só depende de você fazer o seu trabalho. O único solo de guitarra propriamente dito que ouviremos em BRAVO foi feito dessa maneira. Eu abria o volume e vinha aquela "búúúúu´píííí fuóóóón" e eu tinha que tocar imediatamente para não ter isso. Viro de costas para o ampli para limpar o solo. Viro de frente pra ele para sujar tudo e meto o foda-se. Penso em Jimi, em David, em Eric (sério). Sinto que, mesmo tocando todos os instrumentos do meu disco, é na guitarra que eu mando bem. Deus nos abençoe! 
Logo logo voltaremos com novidades. O disco está ficando altamente Bravo. 

Que nosso país seja abençoado pelo criador. 

terça-feira, 11 de junho de 2013

Bravo - dia 1.


O BRAVO nasceu sem a mesma pretensão de ESPERANTO e SOL. Que eu me lembre - e lembrar é algo raro para mim - fiz canções que me pareciam "bonitinhas", nada mais. Listei-as totalizando 13 canções, guardei no HD e parti para o "Aliás", da Oito Mãos, para o "Delírio e Destruição", do Guilherme Moraes e do disco do Leo Costa, sem nome ainda e sem finalização. 

Nesse domingo me tranquei no Estúdio Norte, de Luis Alcaíde - o mesmo que masterizou a versão vinil de Aliás - e nos entregamos ao trabalho. Uma semana antes nós chegamos a conclusão de que se conseguíssemos matar a batera de pelo meno 4 canções, seria um bom feito. Só que o clima ensolarado de um domingo ressacudo em Barão Geraldo tinha outros planos para nós. 

A coisa soou tão natural que antes do almoço tínhamos metade das bateras prontas. Fomos almoçar um temaki e retornamos. Tomamos um chá verde - sério, chá verde mesmo - e voltamos ao trabalho. A única canção em que empaquei foi "O Choro da Gi", que resolvi fazer uma leva de hi-hat que não sei executar. Luís me aconselhou a deixar essa por último. Assim foi. Matamos o resto e, as 19h, quando fui gravar mais uma vez "O Choro da Gi", matei em um take. Luís me olhou da técnica, fiz um sinal de Heavy Metal enquanto esperava o som do prato se dissipar. Quando Luís apertou o stop, eu berrei "ROCK AND ROLL!". 

Daí sim nós celebramos um domingo inspirador. Na verdade a semana toda foi inspiradora. Meu ombro esquerdo doía muito, mas esquecer por horas o trabalho que paga minhas contas para executar o trabalho que faz vivo é um alívio para a alma, mesmo que o corpo tente ceder. Dia 15 e 16 faremos os baixos e guitarras. 

Até. 



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Aliás, o vinil.

Depois que entrei para a Oito Mãos, minha vida só foi subir degraus. Essa banda é a maior que eu já participei e, pelo jeito, temos muita lenha para queimar. Quando eu realmente acho que já deu, cá estamos nós sendo presenteado com o acaso. 

Quando comprei uma vitrola - após ter ouvido o Revolver num sebo em Itatiba-SP - cacei todos os discos que amo. Eu vibrava a cada Band On The Run que achava nas lojas, levava pra casa e me deliciava com o som do vinil. Percebia que o Dark Side Of The Moon tinha mais dinâmica, silêncio era silêncio, porrada era porrada, pianinho era pianinho. 

Foi quando, após começarmos a pensar em gravar um novo disco para a humanidade, eu disse "e se a gente prensasse em vinil?". A coisa era impossível. No Brasil - tinha que ser né - só existe uma empresa fazendo isso, cobrando um preço exorbitante com a falta de concorrência. Era praticamente impossível, um duro e tortuoso sonho de ser alcançado. 

Gravamos o disco. Mixei o disco. Masterizamos o disco. Sonhávamos mais um pouco.

Até que teve um dia que eu chamei o compadre Felipe Bier para dar um rolê em sampa, queimar umas verdinhas - to falando de dinheiro também - em mais discos de vinil. Entramos numa loja de uma moça simpática que já veio me zoando de maluco - eu devo ter cara de maluco. Entre compras e outros papos, lançamos a ela que éramos uma banda. 

"Ah tá, e cade o produto de vocês?" - essa pergunta nos deixou de cara no chão. Deve ter uns 800 CDs do Vejo Cores na casa do André e a gente simplesmente não sai com ele por aí. "Vocês têm que vender, sem esse papo de consignação. Eu teria comprado uma caixa de vocês". Sim, ainda tem gente que acredita na mídia física. A razão? É simplesmente o melhor. Foi quando, nesse mesmo instante, dissemos que estávamos gravando outro disco e que nosso sonho era prensar em vinil. Ela nos passou todos os contatos, e nós sabíamos que prensar na gringa era mais barato. E funcionava!

Daí pra frente toda a parte burocrática foi feita pelo Bier. Aqui deixo o meu mais sincero obrigado. Quando esse cara põe algo na cabeça, ele faz acontecer. 

A prova do LP chegou ontem. Cheguei em casa, dei comida para as cachorras, tomei um banho, troquei de roupa e coloquei a bolacha dupla pra tocar. 

A viagem que passou pela minha cabeça foi tamanha que eu não conseguia pensar em outra palavra além de uma: surreal. 

Quando a gente diz que está gravando um disco, as pessoas não têm muito a noção do que isso realmente quer dizer. Alguns dizem "você está gravando um CD?". Mas, dessa vez, eu posso dizer: gravamos um disco, porra!

O Aliás versão vinil tem 4 lados. A pausa que há entre as canções é cinematográfica. Você adquire, entre um lado a outro, tempo para assimilar as coisas - é um disco longo. No formato vinil a mixagem finalmente pode ser ouvida do jeito que ela foi concebida, como se você tivesse ouvindo dos falantes do estúdio. Hoje eu posso dizer, quase que prepotente: Quer ouvir uma mix minha? Compre o vinil. 

A isenção do compressor - absolutamente necessário para as masterizações digitais (CD) - nos dá um quê de segurança no que se ouve. O que se passa na agulha é de tamanha precisão que dá a impressão de que a banda está na sua sala, tocando ao vivo. Não sei dizer se é porque o trabalho é meu. É muito diferente. Também não sei dizer se é a impressão que temos na ranhura da agulha com os sulcos do vinil. O físico girando realça os graves, os médios e os agudos. As canções porradas - A Vitrine, Um Amigo, Infância, Lá se Diz e Linhas de Fogo - ficam mais "soltas", dando uma profundidade tamanha. 

O que impressiona é o retorno ao passado. A tecnologia atual é normal aos nossos olhos acostumados com PS3. Mas ao submeter-se à tecnologia antiga (e põe tecnologia nisso) você se vê rodeado de significados. 

Nós fizemos história lançando esse disco nesse formato. A alegria é indescritível. Eu passei por tanta coisa nessa vida de música - estou só começando - que fica complicado conter a emoção ao ver, finalmente, o teu disco! A internet é pequena. O Mp3 é surrado. O Wave é logaritmo  Sim, eu sei que gravamos em Wave, mas a ranhura do físico acaba com isso tudo. 

Fizemos o Aliás com uma placa de som M-Audio Fast Track 8R, compressor DBX ligado no automático. Vozes plugadas no pré Blue Tube da Pré Sonus, utilizando um microfone AKG Perception 120 (o mais bosta da categoria). Guitarras Gibson SG plugada num Fender Blues Deluxe microfonado num SM 57; guitarra Fender Telecaster Mexicana plugada num Fender Hot Road Deluxe. Contra baixo Fender Jazz Bass Marcus Miller ligado direto na placa. Tudo isso em 16 bits. Sim, 16 bits. 

E daí? 

HAHAHAHAHAHA!! PORRA!! PUTA QUE PARIU!!! NÓS SOMOS A OITO MÃOS, MUITO PRAZER! 

Viemos para nunca mais sermos esquecidos. 

Fazendo história.