sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Aliás, ninguém te perguntou nada.



                                         Christian Camilo

"Nunca gastamos um centavo para nada, só ganhamos concursos e essas coisas que dão incentivo financeiro. Sempre investimos na música, ainda não fomos viajar com essa grana, não é a hora ainda". 

Da última vez que falamos com Felippe Pompeo, ele acariciava Madalena, a sua Pit Bull branca. Hoje ele está entre duas vira-latas incrivelmente parecidas – Maria Bethânia e Pantera Ponte Para Terabítia. “Quem deu esses nomes foi a minha mulher, e vocês achando que eu que sou maluco” diz ele enquanto abre a porteira de sua casa em Joaquim Egídio para nossa equipe, somos cercados imediatamente pelas duas cachorras marrons. Toda vez que Felippe está incluso em alguma produção, cá estamos nós do “Blocos de Cimento” para poder entender um pouco mais sobre sua função na comunicação musical – mesmo que ninguém dê a mínima.


Os Blocos de Cimento – Você disse que não iria parar nunca. Realmente, parece longe de uma pausa.

Felippe Pompeo – O que eu posso fazer? Sou movido a isso. É o que dá sentido a minha vida.

Bloco – Você fala de um jeito que parece triste...

Pompeo – Tristeza também é um sentimento. A vida é uma mistura disso tudo não é mesmo? Felicidade, tristeza... Só que nós damos sempre ênfase à tristeza, não sei por quê. Se você tiver a resposta, me ajude.

Bloco – Não faço a menor ideia.

Pompeo – Somos todos uns condenados ao trabalho, a angustia. Medo e essas coisas que vem com o pacote da fecundação. Não pedi para nascer e não pedi para gostar de fazer discos, mesmo sabendo que isso nunca me levou a lugar algum. E não estou sozinho nessa. Converso com um monte de gente talentosa e todos sentem o mesmo – há tanta gente foda no mundo e poucas são reconhecidas pelo seu talento.

Bloco – Então não reclame.

Pompeo – É inevitável. O que eu faço, geralmente, é olhar ao redor e pensar que poderia ser pior... Sempre poderia ser pior. Essa coisa da angústia, quando bem administrada, nos fortalece. Foi desse modo que o Aliás foi concebido – e aqui eu falo por mim.

Bloco – Aliás, que nome hein!

Pompeo – Forte não é? Quer dizer o que você quiser pensar. A banda é muito boa. Antes eu era produtor, moldamos as coisas, colocamos quadros e tudo mais na sala. Hoje eu faço parte da banda, toco bateria e produzimos juntos todo o material do disco novo, que sai em janeiro, se tudo der certo.

Bloco – E como poderia não dar certo?

Pompeo – Sempre há essa possibilidade. O disco foi gravado com plug ins piratas, você pode imaginar o parto que foi.

Bloco – O que há em Amparo-Sp?

Pompeo – Uma chácara do pai do guitarrista, o Publio. Sempre vamos pra lá e eu sempre tive vontade de varar uma semana lá gravando um disco inteiro. Montamos nosso equipamento e foi o que fizemos, numa semana gelada de julho, das dez da manhã as dez da noite. Foco, muito foco no trabalho e a certeza de que iríamos sair de lá com o disco todo gravado.

Bloco – Conte mais, então...

Pompeo – Eu havia saído da banda. Fui convidado a me retirar na função de produtor. Nesse tempo eu terminei o Sol. O Adhemar entrou em um concurso publico e foi morar em Belo Horizonte, deixando os caras na mão. Eles tentaram tocar com outras pessoas, mas o óbvio me chamava, pois além de conhecer todas as canções do Vejo Cores Nas Coisas, eu lido muito bem com eles musicalmente falando. Parece que nascemos um para o outro. Recebi o convite via email e fiquei muito contente. Aceitei na hora, e se eu soubesse que ia exigir tanto do meu espírito, talvez eu nem teria entrado no barco. Mas ainda bem que eu não sabia.

                                                                                               Christian Camilo
"Eu prefiro meter o pau nos grandes – no Foo Fighters, por exemplo, ou no U2. Sou formiguinha perto de dinossauros. Então foda-se".

Bloco – O que quer dizer?

Pompeo – Vocês não acreditam mesmo não é? Acham que gravar um disco é sentar, fumar maconha, beber pra caralho, gravar os takes e ir rindo a cada take. Não é assim. Há todo um processo doloroso por detrás disso e eu acho que o ego é o maior deles. Somos vulcões prestes a explodir. E isso machuca. Somos democráticos a ponto de criar uma burocracia insuportável, quando não há espaço para a menor ditadura. Qualquer coisa eu um não concorda, para tudo e volta do zero. Qualquer coisa que um quer e diz com convicção, quer dizer que está impondo... E por aí vai. O resultado final é incrível, pois nada sai na moleza, tem que ralar, tem que chorar, que persistir.

Bloco – O Aliás foi gravado por vocês também, que nem o Vejo Cores?

Pompeo – Exato. Usamos nossas coisas, nossos plug ins e softwares piratas. Compramos compressores e guitarras novas. Uma bateria nova e tudo o mais. Fizemos a pré-produção no Nosostros Estúdio, do Roger Ceigon. Mas antes disso nos encontrávamos na casa de um ou de outro “ó, tenho essa música, o que acham?” – e ia sacando no violão. Quando tudo ficou engessado, foi a vez de gravar. A gente levantava naquele lugar maravilhoso de Amparo as nove da manhã, tomava café e ia pro canto de gravação. Enquanto dois de nós pilotávamos e gravávamos, outros dois almoçavam. As dez da noite parávamos e íamos dormir lá pelas duas da manhã, bêbados, é claro. Não houve tempo para o futebol, mas para a cerveja e o Playstation 3 teve sim.

Bloco – O que mudou do Vejo Cores para o Aliás?

Pompeo – O Vejo Cores é um disco do caralho. Foi feito sob merecimento. Nunca gastamos um centavo para nada, só ganhamos concursos e essas coisas que dão incentivo financeiro. Sempre investimos na música, ainda não fomos viajar com essa grana, não é a hora ainda. O Aliás é mais maduro, mais sério. Mais focado no trabalho. Dessa vez a gente confiou um no outro. O Bier trouxe “Pacificamente” e eu lembro de pensar “fudeu, não faz o menor sentido”, mas mesmo assim respeitei o colega de trabalho no que ele acreditava ser uma boa canção e assim fazê-la – e eu tenho certeza de que muita gente vai dizer que essa é a melhor do disco. A gente foi mais profissional, lidamos com todos os problemas da melhor forma em prol da banda jurídica. Pois não há uma pessoa física que comande isso tudo, por mais que muitas vezes qualquer um dos quatro possa pensar o contrário. O André até brincou certa vez dizendo que deveríamos colocar no encarte “produzido por Oito Mãos sob treta, muita treta”.

                                                                                                          Silvia Montico
       "Isso que me faz ficar de pé, a certeza de que o meu trabalho é foda. Oito Mãos é foda".

Bloco – O fato de vocês quiserem sempre estar tomando conta da direção de tudo não revela a causa de produzirem, gravarem e mixarem sozinhos?

Pompeo – Concordo. Mas também porque nossa grana foi gastada com equipamento e não com estúdio. E também porque a coisa do caseiro é muito gratificante. Reconheço todas as limitações do trabalho, mas também reconheço todas as perfeições, e pra mim elas sobressaem. Por exemplo, eu não usei nenhum plug in para corrigir desafinações, por questões nossas, e você vai ouvir todas as desafinadas ali, somos autênticos, não somos mentirosos, somos rock and roll. Não há correção de bateria ou de guitarra. Não há borracha. É aquilo mesmo, é a gente tocando e cantando no tempo e afinados. Não usar o corretor vocal só vai engrandecer as partes perfeitas – é o caso de “Algo Espetacular”, uma canção simples e linda, muito linda. Além do mais, sem algumas pessoas que emprestaram seu talento sem cobrar nada por isso, não teríamos vindo até aqui, é o caso de Fabio Boto, Christian Camilo e Silvia Montico. 

Bloco – Não vai criticar os trabalhos milionários?

Pompeo – Claro que não! Se acha que vou meter o pau no Sertanejo Universitário ou no High School Music, esqueça. Já fui disso, hoje acho que isso é a maior perda de tempo. Os frustrados metem o pau nos obviamente ridículos para se engrandecer não sei do que. Eu prefiro meter o pau nos grandes – no Foo Fighters, por exemplo, ou no U2. Sou formiguinha perto de dinossauros. Então foda-se. Agora, meter o pau no ridículo é chutar cachorro morto, quebrar madeira para exibição de karatê. Quer usar o melodyne ou o auto tune, manda ver! Mas use direito!

Bloco – Vocês vão prensar em vinil... Numa época em que ninguém mais faz isso...

Pompeo – Cara, em que mundo você vive? Dá um pulo na Saraiva ou na Cultura. Tá tudo lá, lançamentos e relançamentos no vinil. Todo mundo está falando sobre isso e recomendo que você compre uma vitrola o mais cedo possível e saia comprando seus discos preferidos em sebos, pois o preço disso tudo vai voltar a ficar caro – já é. O nosso vai ser duplo, então vai ser caro. E não vamos ficar “compre, pelo amor de Deus”. Azar é teu se não adquirir o seu exemplar. Fazemos isso por nós, eu e o Bier somos apaixonados por discos de vinil. O sabor do som é outro, é comparar um vinho brazuca com um chileno – a mesma cor, mas outro sabor. O cd perdeu o seu valor, fez a música virar um cartão de visitas. O mp3 tirou toda a proposta de fazer música maior que a vida. Essa é a nossa proposta. O Aliás contém 13 músicas de puta que pariu de foda. Eu tenho absoluta certeza disso. E se a pessoa que ouvir não achar isso, eu acho que essa pessoa é burra. Sabe os fãs da coisa ridícula? Então... Isso que me faz ficar de pé, a certeza de que o meu trabalho é foda. Oito Mãos é foda. Pouca gente faz canção para tirar lágrimas dos olhos. Muita gente lança material para vender, para entreter, para trepar. A gente faz para marcar a vida de um. Sempre vai ser assim. O vinil vai reforçar isso. O cara compra um LP do Aliás e pra sempre vai ser impressionante. O disco está impressionante. Não há mais nada a se fazer, divulgações, promoções, correr e tocar... Ninguém dá a mínima. Somos uns idiotas falando de nós mesmos e de nossos sonhos.

                                                                                               Christian Camilo
                               "A bateria é o instrumento mais fácil de cagar numa canção".

Bloco – Da última vez que nos falamos, você disse que não esperava mais nada da música... Acabou de tocar na palavra sonho. O que me diz?

Pompeo – (pensativo) Fazer um show no Circo Voador, na Lapa- RJ, é um sonho. Possível né, porque tá lá... Eu vivo uma vida real pessimista e sonho quando estou fora da realidade. O Circo é real. A vibração lá é fora do comum. Vi Little Joy e o Amarante chorando naquele lugar, é de outro mundo. Amo o Rio e o seu vento salgado.

Bloco – Vamos falar de instrumentos. O que você, de fato, toca?

Pompeo – Nasci cantando. Depois meu pai me deu um violão. Depois eu percebi que a lógica da guitarra era a mesma. Mais tarde percebi que tocar guitarra era diferente. Depois percebi que baixo era mais fácil que guitarra e violão, mas que exigia uma marcação de tempo próximo ao bumbo. Depois ganhei um piano e segui a lógica de 3 dedos e fazer a mesma coisa com as duas mãos. Depois não queria ensinar baterista nenhum a tocar minhas músicas e encarei o instrumento nos meus discos. Logo o Oito Mãos me chamou para tocar bateria na banda. A bateria é o instrumento mais fácil de cagar numa canção. Quanto mais shows a gente faz, mais eu me sinto seguro. Às vezes a baqueta cai, mas eu não estou nem aí. Gasto uma energia gigantesca, me machuco todo, minha coxa fica roxa ao fim dos shows e meus dedos enchem de bolha. Minha caixa 14x8 não aguenta as porradas de rinchotes que dou e cede afinação em todos os shows. Fico puto com isso porque o nome do instrumento é BATERIA, então deveria aguentar. Pontos negativos pro seu Odery, que mandou fabricar caixas nos Xing lings e estão fazendo de qualquer jeito... O mesmo acontece com o banco da série Privilege – são uma merda. De qualquer modo, eles estão ricos. Mas eu me sinto muito bem quando as pessoas vêm e dizem “porra, tá tocando pra caralho”. Me machuco todo, mas é muito gratificante. Sou o tipo de cara que adora montar e desmontar uma bateria, é um ritual.  A gente está fazendo uma série de shows pra ninguém, há um lugar pra tocar e a possibilidade, a gente aluga uma van e tudo o mais e vai. A gente se diverte, toca e vem embora. Tudo isso pago por uma parada de incentivo cultural que até hoje não sei o nome... Não me ligo muito nisso, me ligo mesmo é na música.

Bloco – Qual foi a causa de desistir de assinar a mixagem do Aliás?

Pompeo – A burocracia, é claro. Se eu fosse o cara que havia mixado, algumas coisas que estavam de agrado dos outros integrantes não entrariam. Mas, como eu já disse, é tudo muito democrático. Algumas coisas não me agradam, mas isso é pessoal. Não fará diferença no ouvido das pessoas. Mas foi o meu modo de dizer “caras, não concordo com esse reberb aí, tirem o meu nome da mixagem, coloquem como feito pela banda”. Mas fui eu quem mixou, sim.

Bloco – E quem é o teu baterista preferido?

Pompeo – Putz... Fudeu. Mas vou citar... Steve Gadd, naturalemente. John Bohan, naturalmente. Ringo Star, puta merda...! E meu pai diz que eu imito o Abe Laborial Jr... Vai saber. Na fila do show do Paul McCartney geral me zoava “olha o Abe ali” (Abe Laborial Jr . é o atual baterista da banda do eterno beatle).

Bloco – E, pra finalizar, da onde vem essa idiotice de ficar fazendo entrevista com você mesmo?

Pompeo – Ninguém nunca terá o culhão de me perguntar o que você está me perguntando. Ninguém nunca se interessará por me perguntar coisas além de “cite suas influências” ou “conte como a banda começou”, essas coisas genéricas do jornalismo preguiçoso. Eu tenho muito a dizer, mas ninguém me pergunta nada. E ninguém melhor do que eu mesmo para saber exatamente sobre o que eu quero falar.


                                                                                                                                                          Christian Camilo
"Eu tenho muito a dizer, mas ninguém me pergunta nada. E ninguém melhor do que eu mesmo para saber exatamente sobre o que eu quero falar". 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Delírio e Destruição - Guilherme Moraes


Afinidade é metade do caminho para se produzir um disco. Eu e o Guilherme Moraes - o Guile, na escola; ou Hérnia, na faculdade - no esbarramos por causa do violão, é claro. Caso contrário, duvido muito que eu me envolveria com um cara perna de pau no futebol - o pior que já vi jogando. 

No terceiro ano de ensino médio do Colégio Batista de Campinas - exatamente no ano 2000 - o Guilherme estava no segundo, mas já tocava BRASILEIRINHO nos 220 bpm. Conhecia Bah e cantarolava pra lá e pra cá coisas do Chico Buarque, Djavan, Caetano e Gil. Daí eu repeti o 3° ano para provar para todo mundo que era sim possível repetir o último ano do ensino médio, e fui acabar estudando com ele e mais uma pá de gente boa que, alguns deles, até hoje são meus amigos. Mas esse post é sobre o Guile.

A gente sempre fez um som juntos. Numa gincana escolar caímos no mesmo time. Havia uma prova de música e tocamos Flor de Liz, do Djavan. Daí o outro grupo tocou e descobrimos algo terrível em comum - rir das coisas mal feitas. Coisa de moleque, é claro, mas que ainda fazemos sem perceber, ainda mais se tivermos sem o olhar acusador dos desocupados. 

De qualquer modo, começamos a fazer quase tudo juntos e ao mesmo tempo. Namorar, fumar cigarros, porres. Nosso humor podre era basicamente o mesmo. Guilherme gostava de fazer desenhos (nunca vou me esquecer do "Bicho de Pau Podre", do "Tiozinho Tarado do Pátio" e do "Pirulo Gozado - Uma Produção de Willie Wonkatarro"). Também sacaneávamos as minas escrotas e os caras escrotos (cochichando, é claro). Éramos moleques de primeira classe, desdenhando de nós mesmos por sermos uns puta zé ruelas. 

Anos mais tarde - bem mais tarde mesmo - o universo social virtual nos une novamente, num primeiro instante timidamente, via Orkut, migrando para o My Space somando com MSN MESSENGER. Foi aí que ouvi uma versão demo de "O Mar". De cara achei uma coisa peculiar, bem equilibrada, bem feito, de um puta bom gosto. Obviamente o cara que cantarolava Chico Buarque durante as aulas não faria qualquer coisa em seu trabalho autoral.

Guilherme estudou violão popular. Quando tá de saco cheio, esvazia descendo a porrada no violão 7 cordas. Tem uma afinidade incrível com a criação de solos de guitarra, levando as escalas quase a sério - com o pequeno detalhe de fazer exatamente do jeito dele. Apelidei-o carinhosamente de bunda mole - porque canta baixinho e toca baixinho. Foi preciso muito volume para captá-lo, talvez venha justamente daí a limpeza e o brilho de sua música. 

E - pasmem! - a maior banda de todos os tempos em sua opinião é o Led Zeppeling. O cara é roqueiro, ou roquenrou... Para ele, Jimmy Page é o "maior peidão de todos os tempos". Outra grande pérola é dizer "nada te impede de ser fã de Vinicius de Moras e ao mesmo tempo de Black Sabbah". Bem, pérolas é com ele mesmo. "Cara, músico é a pior raça que existe... Uns putas babacas metidos a besta punhetando ego de si próprio, falando mal disso e daquilo" ou "Oasis é uma merda" ou "A gente é foda" ou "bah, foda-se, ninguém vai ouvir isso aí mesmo" são o tipo de comentários que valem a pena passar horas dedicando seu preciso tempo para gravar as coisas dele. 

Nesse meio tempo conheço, através dele, Mariana Vasconcelos, outra bunda mole, pois acha que canta mal. Eu acho que ela tá de sacanagem. Sabe que, no fim das contas, canta pra caralho. Dona de uns olhos gigantescamente azuis e de cabelos que variam de cor de acordo com a estação ou de seu humor, Mariana é movida a vinho. Dê uma taça e ela canta com você. Dê duas e ela começa a pedir música. Dê três e ela canta alto o suficiente para o bar todinho parar o que está fazendo e aplaudir. Me lembro de dizer ao Guilherme "mas ela canta mesmo?", pois desde sempre era para a sua voz estar presente. E ele respondia "canta cara, é sério". 

Sempre fui desconfiado. Mas será? Falava para ele "a gente precisa fazer algo juntos", mas o meu instinto de artistas quase lá me davam uma adiada, sempre. Não sei explicar exatamente o que. Mas sei explicar exatamente o que me fez parar de adiar. Já no Facebook, Guilherme posta, via You Tube, um link de uma música dele, sob o título de "eu e minha capacidade de errar minha própria música". Tratava-se de "Senhora", um samba do crioulo doido feito por branco bunda mole querendo dizer tudo e mais um pouco para qualquer mulher que mereça esse título. De Senhora foi-se uma mensagem inbox - "cara, vamos gravar... tem mais música?". 

Ele tinha. Foi lá em casa e de cara mostrou "Acalanto". Uma quebra de tempo em seus compassos doidos. O mundo enigmático da genialidade morando no mesmo bairro que eu, e que lá em 2000 já mostrava suas veias poéticas, em desenhos, em sarros, nas notas das provas. Um cara extremamente inteligente e irritantemente humilde. Onde antes havia incerteza (será que há coisa boa aí?) hoje há a certeza absoluta de que a música merece atenção, um play e um replay. Ouça "Bonita" e entregue-se ao grude da coisa bem feita, do passo do guarda chuva, da guitarra axezeira quase nada a ver com rock and roll. Diga-me, de uma vez por todas, onde é que foram parar os apreciadores da boa música. Certamente estão por aí... Por aí...

O time: da esquerda pra direita - Ítalo Antonucci (percussão), Mariana Vasconcelos (voz), eu (produção e mais umas coisas) e Guilherme Moraes (o cara). 


Afinidade é metade do caminho para se produzir um disco. A outra metade é baseada em afinidade também, depois de conhecida as canções. O respeito mútuo pelo produtor. A capacidade de vetar a ideia do produtor (exatamente quando esse produtor está viajando demais). Tomar a decisão de não chamar nenhum baterista de verdade para não acimentar o trabalho (fãs de Aron Spears e Dave Weckl e CIA, me perdoem, mas acho que vocês não entenderiam). Tinha que ser um fã do Ringo Star e suas viradinhas para se fazer o samba manco de "Senhora" (as senhoras mancam, na maioria das vezes), o frevo atrasado de "Bonita", o ataque maloqueiro e preguiçoso de "Multidão". É rachando a pedra que lapidamos o diamante. Pode demorar o tempo que for, mas no fim das contas é sempre um grande prazer ter seu nome associado a um trabalho tão bonito. Não há outra palavra - BONITO.

Muito bonito.


aqui você puxa o disco




sexta-feira, 28 de setembro de 2012

Tulipa Ruiz no SESI AMOREIRAS



No dia 9 de agosto de 2012 eu postei meu parecer sobre o segundo disco da Tulipa Ruiz, "Tudo Tanto". Quarenta e nove dias depois (se eu não errei na conta) estou lá, sentado acho que na oitava fila, no corredor de um teatro bem bacana que eu nem sabia que existia na minha cidade - o SESI Amoreiras, Campinas-SP. 

A começar pela grande dádiva do valor da arte (ainda mais uma arte do cacife de Tulipa) - de graça! E  eu achando que seria o único interessado em conferir a continuação de Efêmera ao vivo. Da última vez que a vi, Tulipa gozava do sucesso da já citada "canção-tútulo". A coisa ainda um tanto nova. O sucesso rondando na cara, no palco, no publico. Para mim, como espectador, tudo desconhecido. Fui a convite de minha mulher - "vai ter Tulipa, aquela moça que canta aquela música tal, que eu ouço quase todos os dias... Não quero ir sozinha, vamos comigo?". Ora, mas é claro... Gosto de música e o show, naquela época, custou três mangos... Fui surpreendido e passei a ouvir Efêmera todos os dias por uns 3 meses. 

Daí a cantora consegue patrocínio da Natura (até onde li) e grava mais um disco. E tudo está relatado no post de 9 de agosto. 

O tempo que separa Efêmera de Tudo Tanto é o mesmo que separa o "muito obrigada" do último show para o de ontem. Fila tranquila, povo muito educado (dá orgulho de estar lá), gente bonita e respeitável. O teatro se abre, todos sentam. Um aviso sobre segurança e suas portas com travas. Lá fora aquele puta frio de oito graus com sensação de quatro. As luzes se apagam, o irmão dela entra e pega a guitarra, o pai dela faz o mesmo. Os dois amigos no baixo e na bateria. Todos prontos. Até aí todo mundo batendo palma. Então a Tulipa aparece trajando um vestido preto com alguns detalhes brilhantes, com um ar de maluca mas não tanto. Nem sorri. Séria de meter respeito. A virada espetacular de bateria e começa-se o espetáculo que vale certamente uns cento e vinte reais. "Pode ser ou é". Absurdamente perfeito, uma competência de ensinar na faculdade de música com ênfase em palco. A banda, o que se vê, é de uma sutiliza pesada fora do comum. O looping rolando como o quinto músico - a aqui não me interessa teu pre conceito com quem usa isso, pois bem usado é tão lindo como uma harpa. Tudo que foi gravado no disco e que não há quem execute ao vivo está nos loopings, das dobras das vozes de Tulipa ao arranjo de cordas. A impressão que se dá é que apertaram o play do CD. O pai dela é de uma precisão que só os anciãos tem - seu vibrato nas cordas é bonito de ver. O irmão dela caça cada nota como se fosse a última coisa mais importante do mundo.

Aos poucos o olhar sério de Tulipa vai dando espaço aos seus comentários divertidos, dando a certeza de que ela é uma pessoa muito bacana e que o tempo deve passar tão rápido quanto o seu show numa mesa de bar junto dela. Fez algumas confissões quanto à letras e a equívocos de encarte e gravação. Falou que não tocaria Efêmera: "Vamos desapegar gente, para nós também é difícil". E, o que mais me chamou atenção, dizendo que a primeira vez que esteve em Campinas foi no SESC, como artista secundária, tocando na piscina para um povo que estava mais preocupado em nadar e tomar cafezinho do que ver o seu trabalho, e que estar ali naquele momento era muito gratificante. 

O que será daqui pra frente? "Ah, eu não ligo... Vou lançar mais um disco, e os críticos vão meter o pau. E mais um e por aí vai". Penso "mas como é que deve ter gente metendo o pau? Ela está se gabando, só pode". Ela diz "sabe-se lá... quando eu tiver velhinha vou estar cantando ainda" e aqui ela imitou a própria voz tremula de velhice "vou ficar mais um pouquinho" tirando risada de todos os presentes. Daí aquela pausa e diz "ou não". Um show intimista que quando chegou em Brocal Dourado fez todo mundo ficar de pé e os mais empolgados irem ao pé do palco. 

Cara, a Tulipa é muito foda. 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Black Sabbath, 1970





Difícil... Muito difícil falar sobre isso. Nesse momento estou ouvindo “Black Sabbath 1970” e muita coisa se passa em minha cabeça. Os sinos, o vento, a chuva. Ozzy cantando como se fosse marido da Dona Morte (aquela do Penadinho, lembra?), todo mundo um tanto calmo, mas absurdamente sinistro; Tony Iommi fazendo da guitarra algo muito além do que simplesmente tocar. Tente expressar com palavras – arrisco-me a dizer que o peso que tanto caracterizou uma era vinha praticamente do falante do seu amplificador. É claro que, como banda, todos tinham seu peso, sua evidência. Mas o timbre de Tony...

Em 1970 o mundo era um tanto do sonho que vivemos hoje (claro, depende de tua idade e do que você considera ser um sonho). O rock, em seu caule, era ousado e pesado. Mas não barulhento e agressivo. Alguns chamam isso de hard rock. Eu chamo de evolução. Não consigo imaginar Ozzy e Tony pensando “precisamos fazer algo de diferente, algo que o mundo ainda não ouviu”. Imagino que a coisa simplesmente aconteceu. Ingredientes num caldeirão fervendo. Asa de morcego, unha de porco, terra de cemitério. Contos do túmulo. Junta a galera em volta da fogueira e vamos enxergar a diversão no crepúsculo.

Há de se entender que algumas pessoas simplesmente não dão a mínima para demônios, diabos, anjos, céu e inferno. Algumas pessoas até fazem disso o seu ganha pão. Falam disso como se fosse a coisa mais natural do mundo. Se você parar pra pensar, realmente, coisas que assustavam o povo antigo pode não fazer muito sentido hoje em dia. Vivemos num mundo onde o terror é outro, é bomba, é corrupção, é assalto, é assassinato, causados pelo próprio ser humano, e que algumas pessoas justificam tudo isso dando créditos ao tinhoso. De qualquer modo, até os assassinos amam. “My name is Lucifer, please take my hand”. O que isso tudo pode querer dizer são outros mils (pra não dizer quinhentos), o importante é que assustou e ainda assusta uma multidão de gente que, só de pensar em Ozzy e companhia, treme dos pés à cabeça.


Quanto à música que há nesse disco, ela é brilhante, é luz. Um diamante que reflete a claridade de um mundo recheado de mistérios, de uma vida dosada de bem e mal. Ozzy canta muito, preciso em suas notas. Tony é direto, o tipo de guitarrista que deu as mãos a tantos outros e influenciou toda uma geração de guitarristas que vieram depois. Geezer Butler e Bill Ward completam o álbum de figurinhas.
Em muitas de minhas viagens sem sair do lugar, estive com Guilherme Moraes enquanto ouvíamos Black Sabbath nos monitores do estúdio e ele berrava e apontava para os falantes, como se ali estivesse acontecendo uma performance ao vivo: “o que me entristece é o pré conceito musical que há em alguns caras, pois o que há de errado em apreciar isso e ao mesmo tempo um, sei lá... Vinícius de Moraes?”. Não vejo nada de errado nisso. Não é ser eclético, é ser justo.

A nova música pulsa. A nova era. Pulsa de dentro pra fora, de fora pra dentro. A música nunca estagnará. Ela sempre terá suas ramificações, seus caminhos, suas encruzilhadas. A música dá cor à vida. Mesmo se ela for escura, onde não há como enxergar as cores. Mesmo que seja um sábado escuro, enegrecido, há luz nisso tudo. Muitas vezes é na escuridão que enxergamos além, pois deixamos de usar os olhos e passamos a usar os ouvidos, nosso grande órgão, nosso mestre, nosso guia. O velho é aquele que morre. A história é eterna. É nova, pois o tempo é só uma questão de ponto de vista.
Black Sabbath é um retrato perfeito da virada, do novo, do incomparável, do ditador de tendências. É o simbolismo do roqueiro que se veste de preto, com camisas de banda, com correntes, anéis.  É uma banda que faz parte da evolução e que contribuiu para essa evolução continuar na maré de tendências. O mundo agradece.

Dedico esse texto ao querido Danilo Bracalenti, o cara que me disse “Pompeo, você já ouviu isso?”, apertando o play em seguida. 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Tudo Tanto - Tulipa Ruiz



Quando Tulipa Ruiz laçou "Efêmera" - 2011 - os "formadores de opiniões" rasgaram todas as cedas do universo em suas críticas. Eu, o mais crítico de todos os tempos, me deixei levar pela revista Rolling Stone (que é, até o memento, o veículo em que me mantenho antenado nos lançamentos apurados das grandes mídias, e podem me chamar de idiota por isso, estou cagando e andando), ao ler na edição de dezembro que "Efêmera" era o melhor disco lançado naquele ano.

O que pode estar em jogo é que me parece - sempre me parece - que os "formadores de opiniões" rasgam ceda, quando acho que deveriam usá-la para fumar. Eu usei "Efêmera". Fumei tudo. Não sobrou ceda alguma. O disco é simplesmente lindo.

Mas então ela lança "Tudo Tanto" - 2012. A princípio penso duas coisas: foi cedo, poderia esperar mais um pouquinho; e ela abusa do vibrato, o que me faz pensar que é absolutamente natural que muitas pessoas cheguem a achar sua voz irritante.

Também entendo a necessidade de continuar no trem, de pegar essa carona no tesão das coisas estarem dando certo. Ter condições de trabalhar com uma equipe séria e competente, um estúdio onde pouca coisa é limitada (ou quase nada). Diga-se de passagem que Gustavo Ruiz, na minha opinião, é o melhor produtor musical dos últimos 5 anos. É o único trabalho que ouvi em que consigo, de fato, ver o peso das mãos do produtor, sem que isso descarregue a genialidade do artista. Delays geniais, da esquerda pra direita, do jeitinho que adoro fazer em minhas mixagens.

Tulipa não é um produto. Não é uma passagem. Não é o tipo de canção que se canta enquanto faz alguma coisa. Tulipa fez o tipo de música em que você fica babando, sonhando, sorrindo, medroso, curioso. Tem momentos em que você se sente uma criancinha. Tem momentos em que você se sente um adulto velho, espremido pelos próprios conceitos mais bestas de todos os tempos. Tem horas que você deseja estar com ela, numa roda de amigos, tomando um vinho, sem precisar necessariamente falar de música (um assunto na maioria das vezes bem chato).

Ela é o retrato da mulher de verdade, da guerreira, da maluca, da séria, da não periguete, do conteúdo. Não é o tipo de coisa que se elogia só porque é mulher, como algumas bateristas que a gente só elogia pelo fato de ser uma pessoa frágil... Entende? Mulher... A mania de achar que mulheres são frágeis. Uma ova! Mulheres são o cérebro da humanidade. Tulipa é um pequeno retrato disso.

Sua voz parece um elástico. Estica, puxa, encolhe. Alguns momentos é grave e suave, como na canção de trabalho, "Ok", a única que tem certa referência ao "time que está ganhando não se mexe", o tipo de canção que parece ter vindo de "Efêmera". Ou estupidamente forte, a ponto de machucar, como em "Víbora", onde Tulipa respira e solta o berro, junto do verbo, dizendo "e você é o equívoco", de um modo tão violento, mas tão violento, que é sim insuportável, e se você ouvir apenas essa faixa, vai dizer que ela é ridícula, pois é disso que se trata, uma víbora, um veneno, um toque da cobra lustrada, do inevitável, da vida que machuca.

Em "Expectativa", Tulipa parece sorrir maleficamente, dizendo que tudo o que você viveu não é nada, que ainda vamos pirar de vez nessa vida maluca recheada de expectativas e esperanças, mesmo que você se apegue nas coisas que fazem parte dessa vida, sempre vamos viver sob expectativa, sempre vamos querer algo que não temos, sempre vamos correr pra lá e pra cá, e vamos, um dia, me perdoe a redundância, pirar de vez.

Ah, e tem Lulu Santos... Lulu dispensa apresentação. O curioso é que Lulu fica na mesma proporção que Tulipa. Ela não soa tímida, acanhada, medrosa, por gravar com um dos caras mais complicados da música brasileira. Lulu deve ser exigente, deve ter toda a sua bagagem expelindo pelos poros. Isso intimida. Tulipa tira de letra. Fica quieta, dando espaço ao fabuloso Lulu manter sua impressão digital na canção, até um "que o quê" a gente ouve antes do refrão, ao maior estilo Lulu de ser "hei sou foda e faço o que quero". Mas ela, ao ser requisitada na canção, que aliás se chama "Dois Cafés", vem que vem, como em todo o disco. Mesmo sabendo que cada um gravou sua parte vocal em estúdios diferentes, não há pesos e medidas na música.

Isso prova que a música no Brasil não é ruim. Não estamos entregues ao produto. Os produtores não estão gravando apenas o que vende, apenas o que que faz dançar ou pegar mulher na balada. Não estamos jogados ao esquecimento, não somos apenas adolescentes curtindo rock colorido. Isso tudo existe e sempre existiu e sempre irá existir. Mas a música refinada - e essa não é necessária graduação ou coisa do tipo para se ter acesso e ela, a música, não precisa ser complicada, pois é tudo uma questão de gosto - sempre estará entre nós. Sempre seremos agraciados por artistas como nós, que acham isso ou aquilo um grande equívoco, uma curva de rio, uma grande merda, e fazem de sua arte um presente para a humanidade.

Tulipa Ruiz e todo o seu time de impressionantes profissionais. Tudo Tanto. Meus sinceros parabéns.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Eu e a Política.

Vejo esse blog como uma casa de veraneio. Eu não tenho uma, mas como sou uma pessoa alienada pela própria imaginação, me vejo olhando para isso aqui como se lembranças pudessem serem tocadas. Entro na casa, abro as janelas para espantar o cheiro de mofo, sacudo a poeira dos móveis e deito numa rede da varanda. É assim que eu vejo esse blog.

Estamos na época de eleições para prefeito e vereador. Vejo, no Face Book, tirinhas e quadrinhos no que diz respeito ao povo que caga e anda pra política. Me sinto atingindo quando essas coisas acontecem, pois eu quase cago e ando para a política. Às vezes eu tenho que tomar cuidado com o que escrevo. Queria ter a capacidade de escrever como alguns amigos, que conseguem passar para o texto um tipo de raciocínio diferente do seu diálogo. Uma das coisas que mais me arrepiam é quando me dizem "poxa cara, vejo você falando em seus textos". Acho que é por isso que sempre sou mal interpretado. Tenho que tomar cuidado... Mas não vai ser o caso aqui, e acho que isso nunca acontecerá. Não sou eu que sou polêmico, são as pessoas que se sentem agraciadas em sua zona de conforto e ficam ali, ouvindo e absorvendo o que os outros dizem, sem ter o peito estufado para criticar. Eu quero ser o cara que apresenta a nova forma de pensar. E, quando me deparo com pessoas como eu, o colapso é inevitável.

O político - a pessoa que entende de ciências políticas - não vai conseguir, em hipótese alguma, colocar na minha cabeça suas ideias mirabolantes, assim como eu não consigo colocar na cabeça de um protestante que Cristo não é Deus. Não vai me convencer a achar que isso é a nossa salvação assim como não consigo colocar na cabeça de um corintiano que o São Paulo é mais time. Não vai por em minha razão que o protesto é a forma mais sensata de se passar uma indignação. Não vai me fazer sorrir ao dizer que parar o trânsito de uma rua importante em frente à prefeitura será a forma mais elaboradamente justa de chamar a atenção.

Mas é claro que não sou nenhum boçal a ponto de pensar que os políticos, os ativistas e os próprios candidatos estão perdendo seu tempo - muito pelo contrário. Acredito na utopia de um mundo melhor, onde as pessoas se tratem com mais respeito, mais vigor, menos "jeitinho brasileiro", mais dignidade. Acredito num mundo de direitos preservados, valores pessoais e intransferíveis, do "é proibido proibir".  Imagino um Brasil varrido da corrupção.

É aí que entra o problema. Acredito - veja bem, acredito - que o homem veio ao mundo para aprender, evoluir. Se você parar pra pensar, vai perceber que desde o começo de tudo (outra suposição não provável, veja bem... nenhum cientista consegue me fazer crer piamente no que ele crê simplesmente porque ele diz se tratar de uma ciência provável... O número pi, por exemplo, é um "mistério provável") estamos em constate evolução. Isso tudo um dia vai acabar. Até lá, estamos caminhando para a destruição ou para um novo passo. Nenhum homem é capaz de ter tal poder, mesmo que esse poder seja democrático (uma ova, okay?), pois o poder corrompe. E, se não corrompe, outros corruptos envolvidos o matam, o assinam. Foi o caso do melhor prefeito que Campinas não teve, o PT Toninho 13 - nunca esqueci seu slogan. "É na prefeitura que o PT vai bem, uh tererê, vote no PT".

A ficção trata diariamente do tema. Em "Game Of Thrones", Ned Stark é a salvação, o vereador, o prefeito que tanto queremos, insuportavelmente íntegro, cego pela própria devoção ao império, aos verdadeiros valores do homem correto. Seus deslizes são pessoais. Cumpre as leis, mesmo que achando exageradas e desapropriadas, ele as cumpre. E o matam!

Eu não acredito na integridade dos homens. Nós somos facilmente corrompidos, contra nossa própria vontade, contra nossos próprios valores. Mesmo que saibamos que estamos no caminho errado, porque certo é errado é questão de ponto de vista né... O Brasil é um país onde a coisa começa muito antes, onde sacolinha de supermercado é um assunto superestimando para obscurecer alguma outra coisa muito mais importante. O mundo tem que se salvar, conseguir passar para nossas crianças, de uma forma ou de outra, que o pre conceito é uma banalidade. Deveríamos ter um tratado de "certo e errado", como na época das provas do colegial. Nosso país é um lugar em que todo mundo quer ganhar uma fatia do bolo, quando o bolo deveria ser desprezado pelo bom senso.

Voto no cara que estiver disposto a morrer pelo o que ele acredita. Cristo foi assim. O Toninho, se soubesse que ia morrer (e ás vezes parece que ele sabia, como no dia em que ele morreu, dizendo "se algo acontecer comigo, teremos a primeira mulher prefeita de Campinas) certamente ele diria que estava disposto a morrer, e assim o foi. Mexeu no podre, na fatia do bolo dos vermes, dos mosquitos comedores de bolo fecal. Voto no cara que falar "eu vou morrer pela nossa utopia, e espero agregar um grande número de pessoas dispostas a morrem por isso, até que não haja mais gente no mundo para os corruptos regerem, até que o dinheiro perca o seu valor". Voto no cara sangue nos zóio, nos poucos que tiveram peito para enfrentar a ditadura, para enfrentar Adolf Hitler.

A pergunta é... Esse cara existe?

Meu voto, daqui pra frente, até que se prove o contrário, será nulo.

E que fique claro que esse é apenas o meu ponto de vista. Você, meu caro leitor, não é obrigado a pensar que nem eu.

Paz.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

The Wall, o show.


O poder de Roger Waters é finito porque ele é um homem. Um ser humano que usou vibrações de outras dimensões para compor seus clássicos. The Wall é, antes de qualquer coisa que vimos nesse ultimo domingo - 03/04 - um disco. 

A visão do artista é profunda, enigmática e acessível. Digo acessível porque a coisa não é complicada. É claro que o conceito de The Wall é recheado de caminhos compreensíveis - e incompreensíveis - e poderíamos fazer aqui uma analise sobre o disco em si. Mas não é o caso. Basta entender que Roger Waters está nos dizendo: Tirem a bunda da cadeira, lute, pense, diga, reaja. Não seja um idiota. Estamos morrendo nesse mundo jogado à eterna zona de conforto, onde coisas injustas saem nos noticiários e no dia seguinte já foram esquecidas. 

É o caso do que aconteceu com Jean Charles na Inglaterra - Roger não esqueceu. 

O disco é atual, embora fora escrito imaginado nos tempos de segunda guerra. Ainda vivemos a guerra e seus ecos. O militante é aquele que vê injustiça invadindo nossas casas e quer ver um mundo melhor, mais justo, mais coerente. Geralmente os militantes ricos não são levados muito a sério. Roger é trilionário, vive num mundo capitalista que parece não prejudicá-lo diretamente, mas sim indiretamente. E é aí que a coisa fica grandiosa. 

O show é um espetáculo que foto ou vídeo algum no face book ou you tube conseguirá mostrar. De qualquer lugar do estádio, o espectador e fã devoto sentiu na pele, nos ouvidos, nos olhos e no coração o pânico mesclado com doçura e lucides. O muro, que na técnica era um telão que cinema algum no mundo reproduzirá, revelava a face emblemática do gênio. Sua voz é perfeitamente e assustadoramente a mesma. O cantor que faz as vezes de David Gilmour parece ter nascido com o mesmo DNA nas cordas vocais. As guitarras e seus timbres exatamente como ouvidos há anos no disco estão lá, deixando claro que Roger não renega seu passado com seus companheiros do Pink Floyd. Fica a dúvida de até que ponto o gênio é dono de todas os caminhos percorridos. 

O professor gigante olhando para nós enquanto berramos, em alto e bom som, num vômito de frases impactantes, tais como "Hey, teaches, leave them kids alone", é de repensar sobre a educação que ainda dão aos nossos filhos - não apenas os professores, mas também os pais. Quando Roger canta para a mãe em Mother, e a mãe diz "é claro, mamãe vai te ajudar a construir um muro", nós sabemos que todos nós precisamos de um ninho. As frases são enigmáticas mesmo. Ele diz, bem no começo, em In The Flesh: "Isso não é o que você esperava ver?" e é exatamente o que queríamos ver, lembrando ainda que o um disco você não vê, você ouve, dando a entender a mescla das ideias, tanto no disco quanto no show. O porco sobe sobre o pessoal da pista, e um dizer curioso em português: MUITA FÉ, POUCA LUTA. Os efeitos sonoros te dão a impressão de que há uns dez helicópteros em cima do estádio - MUITO ALTO, alucinante. 

O muro é claramente uma referência ao Muro de Berlin. Quando no efeito de telão, vê-se a cor dos tijolos envelhecidos e pichados. Ou então vira um pano para cenas de filmes. O muro fecha e banda fica atras dele. Roger aparece e se você já havia sido impressionado, impressiona-se novamente. Os bons e velhos palavrões soltados pelos fãs quando Roger toca no muro e um efeito indescritível abre um buraco iluminado. Roger interpreta o show todo, como um ator. Um completo artista, que de quebra escreveu grandes discos com o Pink. E, no fim, nem precisava ter caído o muro. Mas foi necessário. A quebra do muro é um alívio, pois a experiência chega a ser tensa, porque a vontade é de parar o tempo e ficar vendo aquilo por mais umas quatro horas. 

Esse show é uma soma de música e visual. Perfeitamente equilibrados, coesos. Os deuses do rock agradecem a mais uma aparição de um Titã. Só podia ser perfeito.